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Morte e vida
Data 22/dez/1999

UMA MULHER, DA PORTA DE ONDE SAIU O HOMEM, ANUNCIA-LHE O QUE SE VERÁ

--- Compadre José, compadre,
que na relva estais deitado:
conversais e não sabeis
que vosso filho é chegado?
Estais aí conversando
em vossa prosa entretida:
não sabeis que vosso filho
saltou para dentro da vida?
Ao dar seu primeiro grito;
e estais aí conversando;
pois sabei que ele é nascido.
*
APARECEM E SE APROXIMA DA CASA DO HOMEM VIZINHOS, AMIGOS, DUAS CIGANAS ETC.

--- Todo o céu e a terra
lhe cantam louvor.
Foi por ele que a maré
esta noite não baixou.
--- Foi por ele que a maré
fez parar o seu motor:
a lama ficou coberta
e o mau-cheiro não voou.
--- E a alfazema do sargaço,
ácida, desinfetante,
veio varrer nossas ruas
enviada do mar distante.

--- E a língua seca de esponja
que tem o vento terral
veio enxugar a umidade
do encharcado lamaçal.

--- Todo o céu e a terra
lhe cantam louvor
e cada casa se torna
num mocambo sedutor.
--- Cada casebre se torna
no mocambo modelar
que tanto celebram os
sociólogos do lugar.
--- E a banda de maruins
que toda noite se ouvia
por causa dele, esta noite,
creio que não irradia.
--- E este rio de água cega,
ou baça, de comer terra,
que jamais espelha o céu,
hoje enfeitou-se de estrelas.
*
COMEÇAM A CHEGAR PESSOAS TRAZENDO PRESENTE PARA O RECÉM-NASCIDO

--- Minha pobreza tal é
que não trago presente grande:
trago para a mãe caranguejos
pescados por esses mangues;
mamando leite de lama
conservará nosso sangue.
--- Minha pobreza tal é
que coisa não posso ofertar:
somente o leite que tenho
para meu filho amamentar;
aqui são todos irmãos,
de leite, de lama, de ar.
--- Minha pobreza tal é
que não tenho presente melhor:
trago papel de jornal
para lhe servir de cobertor;
cobrindo-se assim de letras
vai um dia ser doutor.
--- Minha pobreza tal é
que não posso trazer
um olho-d'água de Lagoa do Carro,
trago aqui água de Olinda,
água da bica do Rosário.

Minha pobreza tal é
que grande coisa não trago:
trago este canário-da-terra
que canta corrido e de estalo.
--- Minha pobreza tal é
que minha oferta não é rica:
trago daquela bolacha-d'água
que só em Paudalho se fabrica.
--- Minha pobreza tal é
que melhor presente não tem:
dou este boneco de barro
de Severino de Tracunhaém.
--- Minha pobreza tal é
que pouco tenho o que dar:
dou da pitu que o pintor Monteiro
fabricava em Gravatá.

--- Trago abacaxi de Goiana
e de todo o Estado rolete de cana.
--- Eis ostras chegadas agora.
Apanhadas no cais da Aurora.
--- Eis tamarindos da Jaqueira
e jaca da Tamarineira.
--- Mangabas do Cajueiro
e cajus da Mangabeira.

--- Peixe pescado no Passarinho,
carne de boi dos Peixinhos.
--- Siris apanhados no lamaçal
que há no avesso da rua Imperial.
--- Mangas compradas nos quintas ricos
do Espinheiro e dos Aflitos.
Goiamuns dados pela gente pobre
da Avenida Sul e da Avenida Norte.
*

FALAM AS DUAS CIGANAS QUE HAVIA APARECIDO COM OS VIZINHOS

---Atenção peço, senhores,
para esta breve leitura:
somos ciganas do Egito
lemos a sorte futura.
Vou dizer todas as coisas
que desde já posso ver
na vida desse menino
acabado de nascer:
aprenderá a engatinhar
por aí, com aratus,
aprenderá a caminhar
na lama, com goiamuns
e a correr e ensinarão
os anfíbios caranguejos,
pelo que será anfíbio
como a gente daqui mesmo.
Cedo aprenderá a caçar:
primeiro, com as galinhas,
que é catando pelo chão
tudo o que cheira a comida;
depois, aprenderá com
outras espécies de bichos:
com os porcos nos monturos,
com os cachorros no lixo.
Vejo-o, uns anos mais tarde,
na ilha do Maruim,
vestido negro de lama,
voltar de pescar siris;
e vejo-o, ainda maior,
pelo imenso lamarão
fazendo dos dedos iscas
para pescar camarão.

--- Atenção peço, senhores,
também para minha leitura:
também venho dos Egitos,
vou completar a figura.
Outras coisas que estou vendo
é necessário que eu diga:
não ficará a pescar
de jereré toda a vida.
Minha amiga se esqueceu
de dizer todas as linhas;
não pensem que a vida dele
há de ser sempre daninha.
Enxergo daqui a planura
que é a vida do homem de ofício,
bem mais sadia que os mangues,
vejo-o dentro de uma fábrica:
se está negro não é lama,
é graxa de sua máquina,
coisa mais limpa que a lama
do pescador de maré
que vemos aqui, vestido
de lama da cara ao pé.
E mais: para que não pensem
que em sua vida tudo é triste,
vejo coisa que o trabalho
talvez até lhe conquiste:
que é mudar-se destes mangues
daqui do Capibaribe
para um mocambo melhor
nos mangues do Beberibe.
*

FALAM OS VIZINHOS, AMIGOS, PESSOAS QUE VIERAM COM PRESENTES, ETC.

--- De sua formosura
já venho dizer:
é um menino magro,
de muito peso não é,
mas tem o peso de homem,
de obra de ventre de mulher.
--- De sua formosura
deixai-me que diga:
é uma criança pálida,
é uma criança franzina,
mas tem a marca de homem,
marca de humana oficina.
--- Sua formosura
deixai-me que cante:
é um menino guenza
como todos os desses mangues,
mas a máquina de homem
já bate nele incessante.
--- Sua formosura
eis aqui descrita:
é uma criança pequena,
enclenque e setemesinha,
mas as mãos que criam coisas
nas suas já se adivinha.

--- De sua formosura
deixai-me que diga:
é belo como o coqueiro
que vence a areia marinha.
--- De sua formosura
deixai-me que diga:
belo como o avelós
contra o Agreste de cinza.
--- De sua formosura
deixai-me de diga:
belo como a palmatória
na caatinga sem saliva.
--- De sua formosura
deixai-me que diga:
é tão belo como um sim
numa sala negativa.

--- É tão belo como a soca
que o canavial multiplica.
--- Belo porque é uma porta
abrindo-se em mais saídas.
--- Belo como a última onda
que o fim do mar sempre adia.
--- É tão belo como as ondas
em sua adição infinita.

--- Belo porque tem do novo
a surpresa e a alegria.
--- Belo como coisa nova
inaugurando o seu dia.
--- Ou como o caderno novo
quando a gente o principia.

--- E belo porque com o novo
todo o velho contagia.
--- Belo porque corrompe
com sangue novo a anemia.
--- Infecciona a miséria
com vida nova e sadia.
--- Com oásis, o deserto,
com vento, a calmaria.
*

O CARPINA FALA COM O RETIRANTE QUE ESTE DE FORA SEM TOMAR PARTE EM NADA.

--- Severino, retirante,
deixe agora que lhe diga:
eu não sei bem a resposta
da pergunta que fazia,
se não vale mais saltar
fora da ponte e da vida;
nem conheço essa resposta,
se quer mesmo que lhe diga.
É difícil defender,
só com palavras, a vida,
ainda mais quando ela é
esta que se vê, severina;
mas se responder não pude
à pergunta que fazia,
ela, a vida, a respondeu
com sua presença viva;
e não há melhor resposta
que o espetáculo da vida:
vê-la desfiar seu fio,
que também se chama vida,
ver a fábrica que ela mesma,
teimosamente, se fabrica,
vê-la brotar como há pouco
em nova vida explodida;
mesmo quando é assim pequena
a explosão, como a ocorrida;
mesmo quando é uma explosão
como a de há pouco, franzina;
de uma vida severina.

(In:. Morte e Vida Severina e Outros Poemas em Voz Alta, de João Cabral de Melo Neto, 4 ª ed. Rio de Janeiro: Sabiá, 1967, p. 106-116).



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