Na estrada. Caminho de asfalto. Signo da modernidade.
Caminho feito para a velocidade. O tempo encurtando absurdamente.
Nem se diga quando cotejado com alguns antes. Os anciões
o sabem. Distâncias, léguas que demandavam dias,
agora, vencidas em poucas horas. O automóvel e o asfalto,
filhos da velocidade.
Tão rápido tudo, que mesmo o
perecível se salva da decomposição. Mesmo
o sofrimento mais leve está a salvo. Viajar requintou-se
em conforto.. Conforto escalonado, é certo. Do simples
ao sofisticado. Mas assim o fora desde sempre: o cavalo de
raça e marchador. Arreio anatômico e pelegos
generosos. O cavalo vira-lata, andar troteante, duro. Arreio
rude, ao animal, quanto ao cavaleiro. Assim o automóvel,
os ônibus (em tempos idos, jardineiras, marinetes) da
modernidade.
Viajar, então, é passeio. Ainda que seja a trabalho.
Um passeio menos demorado. Sem que, por isso, se perca a hora.
Ir vendo como se olha um vídeo tape que se volta.
Entanto, há um desconforto outro. Dantes,
mal se morria de viagem. Ao sol danoso sempre havia um olho
d'água. Uma sombra afável. Demorava-se, mas
chegava-se vivo. O asfalto é, nisso, nefasto. Asfalto
é também um campo de guerra. Sabe-se que uma
epidemia das maiores. E sem remédio. Sua cura é
improvável. As estatísticas assustam. Mas há
nada que fazer, senão viajar. Ao homem, viajar é
vital. No que se embute a morte.
E o extermínio do asfalto não
fica adstrito à espécie humana. Atinge muito
também outros bichos. De pássaro a répteis.
De quadrúpedes domésticos a selvagens. Automóvel
é um veículo belicoso. E não há
quem não queira estrada que não seja pavimentada.
O risco e o conforto. Perecer é contingência.
Então, em sua viagem de rotina, em
estrada de freqüência inflacionada, o olho ao trânsito
e ao vídeo que se volta. Por isso, um dia viu aquele
casal de pássaro pernaltas. Impressionou-se. Enormes.
Não havia a que assemelhá-los. Pareciam uma
bricolagem. Rabo comprido. Ralo penacho na cabeça.
Trêfegos como uma ema, talvez. Acarijozados. Trotavam
pra lá pra cá bicando isetos. Lembrou-lhe um
faisão caipira inexistente. Era um largo gramado, o
lugar, a cuja cerca emparelhado corria um eucaliptal.
Encantou-se de súbito. Um achado preciosíssimo.
Eram de uma esquisitice impactante e bela. Parecia impossível
pássaros assim por ali. Lugar de pasto e laranjais.
Depois temeu muito. A alguns metros o estreito e negro campo
de extermínio em que ele ia.
Muito espaçadamente daquela vez. E
muito espaçadamente entre a outra e a seguinte, viu-os
ainda mais duas vezes. Quando um dia de rotina viagem avistou
de longe certo objeto emplastado na pista, naquele lugar.
Acostou. Foi constatar. Era um deles. Penalizou-se. O outro,
decerto, de medo, escafedeu-se para longe dali; desejou.
Rolaram-se viagens. Numa volta a casa, foi
ver um lote que comprara à beira do grande rio. À
margem da estrada. Estância turística de futuro
promissor. Tudo ainda eram lotes em natura. Gamináceas
e arbustos. E lá estava. À beira do rio, um
daqueles pássaros. Sozinho. Tudo levava a crer fosse
o viúvo, ou a viúva. Respirou. Ali tudo lhe
favorecia. E não havia risco. O problema seria a solidão.
Mas onde há dois, sempre há outros.