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Faisão matuto
Data 13/dez/1999

Na estrada. Caminho de asfalto. Signo da modernidade. Caminho feito para a velocidade. O tempo encurtando absurdamente. Nem se diga quando cotejado com alguns antes. Os anciões o sabem. Distâncias, léguas que demandavam dias, agora, vencidas em poucas horas. O automóvel e o asfalto, filhos da velocidade.

Tão rápido tudo, que mesmo o perecível se salva da decomposição. Mesmo o sofrimento mais leve está a salvo. Viajar requintou-se em conforto.. Conforto escalonado, é certo. Do simples ao sofisticado. Mas assim o fora desde sempre: o cavalo de raça e marchador. Arreio anatômico e pelegos generosos. O cavalo vira-lata, andar troteante, duro. Arreio rude, ao animal, quanto ao cavaleiro. Assim o automóvel, os ônibus (em tempos idos, jardineiras, marinetes) da modernidade.
Viajar, então, é passeio. Ainda que seja a trabalho. Um passeio menos demorado. Sem que, por isso, se perca a hora. Ir vendo como se olha um vídeo tape que se volta.

Entanto, há um desconforto outro. Dantes, mal se morria de viagem. Ao sol danoso sempre havia um olho d'água. Uma sombra afável. Demorava-se, mas chegava-se vivo. O asfalto é, nisso, nefasto. Asfalto é também um campo de guerra. Sabe-se que uma epidemia das maiores. E sem remédio. Sua cura é improvável. As estatísticas assustam. Mas há nada que fazer, senão viajar. Ao homem, viajar é vital. No que se embute a morte.

E o extermínio do asfalto não fica adstrito à espécie humana. Atinge muito também outros bichos. De pássaro a répteis. De quadrúpedes domésticos a selvagens. Automóvel é um veículo belicoso. E não há quem não queira estrada que não seja pavimentada. O risco e o conforto. Perecer é contingência.

Então, em sua viagem de rotina, em estrada de freqüência inflacionada, o olho ao trânsito e ao vídeo que se volta. Por isso, um dia viu aquele casal de pássaro pernaltas. Impressionou-se. Enormes. Não havia a que assemelhá-los. Pareciam uma bricolagem. Rabo comprido. Ralo penacho na cabeça. Trêfegos como uma ema, talvez. Acarijozados. Trotavam pra lá pra cá bicando isetos. Lembrou-lhe um faisão caipira inexistente. Era um largo gramado, o lugar, a cuja cerca emparelhado corria um eucaliptal.

Encantou-se de súbito. Um achado preciosíssimo. Eram de uma esquisitice impactante e bela. Parecia impossível pássaros assim por ali. Lugar de pasto e laranjais. Depois temeu muito. A alguns metros o estreito e negro campo de extermínio em que ele ia.

Muito espaçadamente daquela vez. E muito espaçadamente entre a outra e a seguinte, viu-os ainda mais duas vezes. Quando um dia de rotina viagem avistou de longe certo objeto emplastado na pista, naquele lugar. Acostou. Foi constatar. Era um deles. Penalizou-se. O outro, decerto, de medo, escafedeu-se para longe dali; desejou.

Rolaram-se viagens. Numa volta a casa, foi ver um lote que comprara à beira do grande rio. À margem da estrada. Estância turística de futuro promissor. Tudo ainda eram lotes em natura. Gamináceas e arbustos. E lá estava. À beira do rio, um daqueles pássaros. Sozinho. Tudo levava a crer fosse o viúvo, ou a viúva. Respirou. Ali tudo lhe favorecia. E não havia risco. O problema seria a solidão. Mas onde há dois, sempre há outros.



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