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Desavindo-se
Data 08/dez/1999

Cidade grande. A avenida, infindo corredor em que a vida humana acontece. A urbanidade é um turbilhão perene. É pura inquietação. Fervilha e vibra o trânsito e os transeuntes, e o comércio, e as fábricas.

Ali, porém, há um dado a mais e contrastante --- o mar. Poderoso guerreiro da natureza. Não se abate. Não se entrega. Convive com a civilização. Mas mantém os seus limites: não ousem tanto, pois sabem do que sou capaz! Confinado em seu espaço, arfa com suas águas quebrando-se em praias. Ruge indômito, quando lhe fica cavalgando o vento. E mesmo brame em fúria, quando fustiga-lhe algum vento jovem, travesso, querendo mexer em caixa de marimbondo.

A cidade imensa. O mar. Dois latifúndios opostos. E ajustados. A cidade é um patrimônio. Nela, os seus donos a dividem segundo as leis da sociedade. Capitalista cada vez mais. O mar é de ninguém. Não se deixa capitalizar. O mar é de todos, que o sabem amar: lembrando-se da canção.

Ia pensando isso, ali, no ponto do coletivo, que o levaria da rodoviária ao seu destino. E continuou pensando, enquanto ia entre o mar e a metrópolis.

Sua distração de passageiro curioso foi quebrada por voz em altíssono: companheiros! E o sujeito abriu seu discurso. Calmo, mas incisivo. Falou da carestia. Do engodo da inflação baixa. A custo de uma recessão nunca vista. O País nas mãos do FMI. O desemprego demolindo a população.

O ônibus impassível. Ninguém parecia prestar-lhe atenção. Embora houvesse silêncio. Ele desabituado àquilo. Também fingira indiferença na sua atenção presa à cidade e ao mar. Posto que ouvisse atentamente.

Não tinha dúvida de que se tratava de um militante político. Julgou inovadora e criativa aquela forma de poselitismo relâmpago, em coletivo. De relance, lembrou-se de quando os comunistas, na ditadura militar de 64, o faziam abruptamente em bares, nas filas. O sujeito, habilmente, escolhera um trecho longo, sem parada.

Quanto a ele, já ficara na certeza de que", na próxima parada, o sujeito, antes de saltar, gritaria "fora FHC!

Mas, não. Surpreendentemente, ouviu-o, em prosseguimento, dizer-se um desempregado. Por isso precisava ganhar honestamente a vida. E então estava ali apelando aos bons sentimentos dos companheiros e companheiras presentes. Pedia-lhes a contribuição de um real. Com esse dinheiro compraria refrigerante para vender na praia.

Os passageiros, impassíveis. Então, cinqüenta centavos! Insistiu o sujeito. A impassibilidade permanecera. Vinte centavos!... Dez centavos, companheiros!

Começou a receber algumas poucas contribuições. Ele, sentindo enorme raiva, desprezo por aquele sujeito, chamando-o, silenciosamente, de mesquinho, canalha, sacou dez centavos e efetuou desdenhosamente sua contribuição.



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