Cidade grande. A avenida, infindo corredor
em que a vida humana acontece. A urbanidade é um turbilhão
perene. É pura inquietação. Fervilha
e vibra o trânsito e os transeuntes, e o comércio,
e as fábricas.
Ali, porém, há um dado a mais
e contrastante --- o mar. Poderoso guerreiro da natureza.
Não se abate. Não se entrega. Convive com a
civilização. Mas mantém os seus limites:
não ousem tanto, pois sabem do que sou capaz! Confinado
em seu espaço, arfa com suas águas quebrando-se
em praias. Ruge indômito, quando lhe fica cavalgando
o vento. E mesmo brame em fúria, quando fustiga-lhe
algum vento jovem, travesso, querendo mexer em caixa de marimbondo.
A cidade imensa. O mar. Dois latifúndios
opostos. E ajustados. A cidade é um patrimônio.
Nela, os seus donos a dividem segundo as leis da sociedade.
Capitalista cada vez mais. O mar é de ninguém.
Não se deixa capitalizar. O mar é de todos,
que o sabem amar: lembrando-se da canção.
Ia pensando isso, ali, no ponto do coletivo,
que o levaria da rodoviária ao seu destino. E continuou
pensando, enquanto ia entre o mar e a metrópolis.
Sua distração de passageiro
curioso foi quebrada por voz em altíssono: companheiros!
E o sujeito abriu seu discurso. Calmo, mas incisivo. Falou
da carestia. Do engodo da inflação baixa. A
custo de uma recessão nunca vista. O País nas
mãos do FMI. O desemprego demolindo a população.
O ônibus impassível. Ninguém
parecia prestar-lhe atenção. Embora houvesse
silêncio. Ele desabituado àquilo. Também
fingira indiferença na sua atenção presa
à cidade e ao mar. Posto que ouvisse atentamente.
Não tinha dúvida de que se tratava
de um militante político. Julgou inovadora e criativa
aquela forma de poselitismo relâmpago, em coletivo.
De relance, lembrou-se de quando os comunistas, na ditadura
militar de 64, o faziam abruptamente em bares, nas filas.
O sujeito, habilmente, escolhera um trecho longo, sem parada.
Quanto a ele, já ficara na certeza
de que", na próxima parada, o sujeito, antes de
saltar, gritaria "fora FHC!
Mas, não. Surpreendentemente, ouviu-o,
em prosseguimento, dizer-se um desempregado. Por isso precisava
ganhar honestamente a vida. E então estava ali apelando
aos bons sentimentos dos companheiros e companheiras presentes.
Pedia-lhes a contribuição de um real. Com esse
dinheiro compraria refrigerante para vender na praia.
Os passageiros, impassíveis. Então,
cinqüenta centavos! Insistiu o sujeito. A impassibilidade
permanecera. Vinte centavos!... Dez centavos, companheiros!
Começou a receber algumas poucas contribuições.
Ele, sentindo enorme raiva, desprezo por aquele sujeito, chamando-o,
silenciosamente, de mesquinho, canalha, sacou dez centavos
e efetuou desdenhosamente sua contribuição.