A Lacerda Editores, Rio de Janeiro, neste
ano de 1999, lançou uma excelente Antologia da Poesia
Portuguesa Contemporânea, Um Panorama. Organização
de Alberto da Costa e Silva e Alexei Bueno. Ambos também
poetas e de gerações diversas. O segundo da
geração/70. O primeiro da de 50. O resultado
foi um apanhado de 72 poetas a partir da segunda metade do
século findo. Tomo, aleatoriamente, de alguns deles
alguns poemas para a leitura desta semana.
Gota de Água
António Gedeão (1905-1995)
Eu, quando choro,
não choro eu.
Chora aquilo que nos homens
em todo o tempo sofreu.
As lágrimas são as minhas
mas o choro não é meu.
(Movimento perpétuo)
Álcool
Maria Teresa Horta (1937)
Na sede mais espessa
dos teus lábios
afunda-se o álcool
das colinas
o ar o clima a tempestade
e talvez qualquer cidade
mais vizinha
E logo a minha boca
se entreabre
matando a tua sede com a minha.
Os Pratos da Balança
Luís Miguel Nava (1957-1994)
Por entre as rochas um rapaz, nas mãos levando uma
balança, avança em direcção ao
mar. Vai procurar pesá-lo. Num dos pratos, o mar há-de
revolver-se, debater-se, rebentar, há-de trazer à
superfície a força das entranhas e atrair o
céu, há-de-o fazer precipitar-se até
com ele se confundir, e as próprias rochas através
das quais o rapaz segue hão-de pesar no prato ferozmente.
Imperturbável, o rapaz colocará no outro prato
o seu sorriso.