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Antologia da Poesia Portuguesa Contemporânea
Data 29/nov/1999

A Lacerda Editores, Rio de Janeiro, neste ano de 1999, lançou uma excelente Antologia da Poesia Portuguesa Contemporânea, Um Panorama. Organização de Alberto da Costa e Silva e Alexei Bueno. Ambos também poetas e de gerações diversas. O segundo da geração/70. O primeiro da de 50. O resultado foi um apanhado de 72 poetas a partir da segunda metade do século findo. Tomo, aleatoriamente, de alguns deles alguns poemas para a leitura desta semana.

Gota de Água
António Gedeão (1905-1995)

Eu, quando choro,
não choro eu.
Chora aquilo que nos homens
em todo o tempo sofreu.
As lágrimas são as minhas
mas o choro não é meu.

(Movimento perpétuo)

Álcool
Maria Teresa Horta (1937)

Na sede mais espessa
dos teus lábios
afunda-se o álcool
das colinas

o ar o clima a tempestade

e talvez qualquer cidade
mais vizinha

E logo a minha boca
se entreabre
matando a tua sede com a minha.

Os Pratos da Balança
Luís Miguel Nava (1957-1994)
Por entre as rochas um rapaz, nas mãos levando uma balança, avança em direcção ao mar. Vai procurar pesá-lo. Num dos pratos, o mar há-de revolver-se, debater-se, rebentar, há-de trazer à superfície a força das entranhas e atrair o céu, há-de-o fazer precipitar-se até com ele se confundir, e as próprias rochas através das quais o rapaz segue hão-de pesar no prato ferozmente. Imperturbável, o rapaz colocará no outro prato o seu sorriso.

(Rebentação)



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