A noite e seus sortilégios. Nela tudo
pode. A noite é a sua nódoa negra e amplexa.
Veú negro acorbertando a plenitude. Apenas suas velas
estelares como pontos de luz. Mais adereços que luminosidades.
Altivas claridades nada comprometedoras. Em vez da aridez
desértica do sol, de sua aguda luz denunciante.
Noite. Circunspecta senhora permissiva. Sua
natureza amoral encoraja os tímidos, os medrosos, os
pérfidos, os inescrupulosos. Feixes de nervos, complexos
de neurônios suscetíveis à liberação
de sua libido irrefreavelmente impulsionados por essa inebriante
e irresistível senhora.
A noite engendra a perfeita ambiência
do provável e do improvável possíveis.
Para ela, se reservam os amores mais recatados, os amores
mais enfeitiçados, os amores mais libertinos. A magna
virilidade do macho e o mais refinado cio da fêmea enfeixam
a infinita e efêmera simbiose culminada no orgasmo,
frêmito de corpo e alma.
À noite, foi reservado o recolhimento.
Nela, o homem e sua prole se restabelecem. Se reciclam. Em
comunhão, à vela, ou candeeiro; à luz
elétrica, ou mesmo à fresca sob o luar e rendado
de estrela, famílias passam a limpo seus medos, pendências,
partilham suas alegrias. Depois, entregam-se ao sono, a quem
cabe o ato de depurar físico e espírito, desconectando
os sentidos e acionando os sonhos, essa realidade virtual,
misteriosa, inebriante e atemorizadora. Verdade que o homem,
este bicho que sabe, inventa, descobre e que, obsessivamente,
busca esclarecer-se a si mesmo, mudou e vem mudando sua relação
com a noite. Estendeu e vem estendendo noite adentro o que
apenas ao dia reservava.
E quanto mais civil, menos soturna, menos
austera, menos solene, menos conspícua a noite. Vendo,
indefesa, ir sendo desfeito o seu dom de incutir o congraçamento
entre as pessoas como até então o fizera.
Vão rarefazendo-se os seus encantamentos.
Roncos de motores, sirenes abertas. Mil bares, e bailes, e
boates. Porém, formas outras de vivê-la, que
não a desanimam. Milenarmente, sedutora imperante e
vaidosa contumaz, sabe bem que tudo isso ainda se faz sob
o efeito da aura de sua magia.
Conquanto raros lhe sejam o cricrilar dos
grilos, os coaxar dos sapos, o longínquo latir dos
cães e o cantar dos galos; conquanto se rarefaçam
os reçôos de seus entranhados, temidos e embevecentes
lobsomens, sacis-pererês, caiporas e demais macunaímas.
Entes-noites da roça. Dos vilarejos. Das cidadezinhas.
Hoje, a noite embranquece a todo vapor. A
noite e seus dessortilégios.