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A Noite
Data 22/nov/1999

A noite e seus sortilégios. Nela tudo pode. A noite é a sua nódoa negra e amplexa. Veú negro acorbertando a plenitude. Apenas suas velas estelares como pontos de luz. Mais adereços que luminosidades. Altivas claridades nada comprometedoras. Em vez da aridez desértica do sol, de sua aguda luz denunciante.

Noite. Circunspecta senhora permissiva. Sua natureza amoral encoraja os tímidos, os medrosos, os pérfidos, os inescrupulosos. Feixes de nervos, complexos de neurônios suscetíveis à liberação de sua libido irrefreavelmente impulsionados por essa inebriante e irresistível senhora.

A noite engendra a perfeita ambiência do provável e do improvável possíveis. Para ela, se reservam os amores mais recatados, os amores mais enfeitiçados, os amores mais libertinos. A magna virilidade do macho e o mais refinado cio da fêmea enfeixam a infinita e efêmera simbiose culminada no orgasmo, frêmito de corpo e alma.

À noite, foi reservado o recolhimento. Nela, o homem e sua prole se restabelecem. Se reciclam. Em comunhão, à vela, ou candeeiro; à luz elétrica, ou mesmo à fresca sob o luar e rendado de estrela, famílias passam a limpo seus medos, pendências, partilham suas alegrias. Depois, entregam-se ao sono, a quem cabe o ato de depurar físico e espírito, desconectando os sentidos e acionando os sonhos, essa realidade virtual, misteriosa, inebriante e atemorizadora. Verdade que o homem, este bicho que sabe, inventa, descobre e que, obsessivamente, busca esclarecer-se a si mesmo, mudou e vem mudando sua relação com a noite. Estendeu e vem estendendo noite adentro o que apenas ao dia reservava.

E quanto mais civil, menos soturna, menos austera, menos solene, menos conspícua a noite. Vendo, indefesa, ir sendo desfeito o seu dom de incutir o congraçamento entre as pessoas como até então o fizera.

Vão rarefazendo-se os seus encantamentos. Roncos de motores, sirenes abertas. Mil bares, e bailes, e boates. Porém, formas outras de vivê-la, que não a desanimam. Milenarmente, sedutora imperante e vaidosa contumaz, sabe bem que tudo isso ainda se faz sob o efeito da aura de sua magia.

Conquanto raros lhe sejam o cricrilar dos grilos, os coaxar dos sapos, o longínquo latir dos cães e o cantar dos galos; conquanto se rarefaçam os reçôos de seus entranhados, temidos e embevecentes lobsomens, sacis-pererês, caiporas e demais macunaímas. Entes-noites da roça. Dos vilarejos. Das cidadezinhas.

Hoje, a noite embranquece a todo vapor. A noite e seus dessortilégios.



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