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Mulher
Data 12/nov/1999

Senhora dona Maria das Graças: à Certidão de Nascimento e a restritos parentes. Quase mais ninguém lera ou ouvira esse nome, em se tratando desta pessoa. Possível mesmo crer que até os filhos. Quando meninos. E também agora, homens de barba e vergonha na cara, como manda a honradez de nordestino.

Penca de moços conhecidos e respeitados. Por si mesmos e pela história aberta daquela mãe, ali sempre sabida como dona Gracinha. Alagoana atarracada de sangue galego avermelhando-lhe as faces. Insistindo a ruivez dos cabelos ante ao assalto descarado do grisalho.

Sabem-na, desde que ali chegada, viúva com uma ruma de filhos. Todos homens. E isso é de hoje, ó. Aqui tudo inda brabo. Bicho brabo. Mata braba. Mais tinha água! Essa fartura! Esse dois rio colosso aí. Isso pra nóis lá de riba era milagre. Mas quá, miséria poca é que não! Pois não é que a terra era toda madrinha. Fácil. Se entregando. Bateu a inxada e ela se abre toda pra simente. Coisa que quando vi chorei de felicidade. Só vendo! Dela, eu mais Nanias, que era o que tinha idade já pra inxada, criando essa cambada aí que tu conhece. Adispois, eles tomém foram pra roça. Tudo trabalhador de empapá ropa. Graças a Deus!

Da viuvez apenas laconicamente limitavam-se a dizer que dera-se cedo. Doença de Nordeste seco, terra pedrenta. Agruras. Dona Gracinha não soube o que era escola para eles. No entanto, rapazes, aderiram à alfabetização de adultos. Primário acabado, acorreram ao ginásio. Período noturno. E foram rompendo caminho. Madrugada ainda, para a roça. À noite, a escola.

Dona Gracinha foi deixando a roça de milho, e feijão, e arroz aos filhos ( Também eles se inebriaram com a avassaladora monocultura da mamona. Todos plantando mamona cuja produção escoava-se para a manutenção da maquinária dos grandes centros urbanos. Isso se deu alguns anos. Depois, mamona infestando tudo, voltou o cultivo da roça tradicional.)

Dona Gracinha pôs-se a mercadejar. Tornara-se verdureiro. Peixeira às vezes. Produção da sua horta. Verduras e legumes frescos, saudáveis, sadios. Os peixes, quando sua rede e seu espinhel armados tinham sorte.

Duas vezes na semana, sortia o carinho tração a cavalo. Manhã já indo, dona Gracinha ao portão chamando pelo nome da dona da casa freguesa. Os filhos tocando a roça. À noite lidando com a Matemática, o Português, as Ciências. Os mais velhos já prestes a concluir o curso. Alguns já indo em casa de moça noivar.

Mas o processo civilizatório, certa feita, trouxe a instalação de grande hidrelétrica ali. O sítio de dona Gracinha desapareceu sob as águas. Os filhos foram ser barrageiros. Dona Gracinha ficou como do lar, cuidando de uma rude casa de tábua deles. Foi o que a indenização do sítio lhes permitiu comprar.



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