Senhora dona Maria das Graças: à
Certidão de Nascimento e a restritos parentes. Quase
mais ninguém lera ou ouvira esse nome, em se tratando
desta pessoa. Possível mesmo crer que até os
filhos. Quando meninos. E também agora, homens de barba
e vergonha na cara, como manda a honradez de nordestino.
Penca de moços conhecidos e respeitados.
Por si mesmos e pela história aberta daquela mãe,
ali sempre sabida como dona Gracinha. Alagoana atarracada
de sangue galego avermelhando-lhe as faces. Insistindo a ruivez
dos cabelos ante ao assalto descarado do grisalho.
Sabem-na, desde que ali chegada, viúva
com uma ruma de filhos. Todos homens. E isso é de hoje,
ó. Aqui tudo inda brabo. Bicho brabo. Mata braba. Mais
tinha água! Essa fartura! Esse dois rio colosso aí.
Isso pra nóis lá de riba era milagre. Mas quá,
miséria poca é que não! Pois não
é que a terra era toda madrinha. Fácil. Se entregando.
Bateu a inxada e ela se abre toda pra simente. Coisa que quando
vi chorei de felicidade. Só vendo! Dela, eu mais Nanias,
que era o que tinha idade já pra inxada, criando essa
cambada aí que tu conhece. Adispois, eles tomém
foram pra roça. Tudo trabalhador de empapá ropa.
Graças a Deus!
Da viuvez apenas laconicamente limitavam-se
a dizer que dera-se cedo. Doença de Nordeste seco,
terra pedrenta. Agruras. Dona Gracinha não soube o
que era escola para eles. No entanto, rapazes, aderiram à
alfabetização de adultos. Primário acabado,
acorreram ao ginásio. Período noturno. E foram
rompendo caminho. Madrugada ainda, para a roça. À
noite, a escola.
Dona Gracinha foi deixando a roça de
milho, e feijão, e arroz aos filhos ( Também
eles se inebriaram com a avassaladora monocultura da mamona.
Todos plantando mamona cuja produção escoava-se
para a manutenção da maquinária dos grandes
centros urbanos. Isso se deu alguns anos. Depois, mamona infestando
tudo, voltou o cultivo da roça tradicional.)
Dona Gracinha pôs-se a mercadejar. Tornara-se
verdureiro. Peixeira às vezes. Produção
da sua horta. Verduras e legumes frescos, saudáveis,
sadios. Os peixes, quando sua rede e seu espinhel armados
tinham sorte.
Duas vezes na semana, sortia o carinho tração
a cavalo. Manhã já indo, dona Gracinha ao portão
chamando pelo nome da dona da casa freguesa. Os filhos tocando
a roça. À noite lidando com a Matemática,
o Português, as Ciências. Os mais velhos já
prestes a concluir o curso. Alguns já indo em casa
de moça noivar.
Mas o processo civilizatório, certa
feita, trouxe a instalação de grande hidrelétrica
ali. O sítio de dona Gracinha desapareceu sob as águas.
Os filhos foram ser barrageiros. Dona Gracinha ficou como
do lar, cuidando de uma rude casa de tábua deles. Foi
o que a indenização do sítio lhes permitiu
comprar.