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Denodo
Data 03/nov/1999

Pelo barulho da campainha ele se denuncia. Todos convictamente o reconhecem, ainda que não o vejam. Um estridente prolongado e forte. Ato de mão que se esquece espalmada esmagando o acionador.

Nada de delicado indicador percutindo um leve esgar sonoro. A campainha emitindo apenas o dlin da onomatopéia.

Teme-se sempre pela queima da campainha. A cadeia onomatopaica parece não mais parar. Corre-se logo atendê-lo. Dizer-lhe que já se sabe dele ali. Que aguarde. Pois que uma leve demora de atendimento leva-o a repetir impacientemente o ato.

O carrinho estacionado. Ele, de pé, olhar espetado na porta. O gesto amável. O riso aberto. O boné acanhadamente erguido pela aba, sem descobrir a cabeça. O corpo inclinando-se levemente na reverência. Desculpa-se pelo incômodo. A senhora (o patrão, às vezes) atendia-o

A casa, decerto, ficara como ponto fixo seu. Mais catador nenhum ali pedia. Pactos. O submundo acordando formas de subsistir.

A colheita ali consiste substancialmente em jornais. O povo da casa parece gostar deles. A cada duas semanas, recolhe-os. A dona da casa sempre adiciona caixas de papelão várias. E ele, sempre manifestamente entusiasmado, vai agradecendo a tudo. Tem aceitado até o que não lhe serve. Pois se há algo que não quer é contrariar a dona. Atira, depois, ao lixo, garrafas descartáveis latas de leite em pó. Coisas que ela também atenciosamente lhe reserva. Ele não sabe lhe dizer disso não preciso, senhora. Lembra-se no capricho diário da senhora em ir juntando para ele aquilo tudo. Decerto, preocupando-se com ele. Não, isso não jogo no lixo, é coisa que presta ao meu catador. E lhe armazena as muitas coisas. E ainda mais. Sem que ele lhe pedisse, deu de dar-lhe o que comer. Primeira vez foi um suculento prato de churrasco. Faziam uma festinha de aniversário. Era uma festa discreta. Mesmo nada se perceberia, não fosse o leve cheiro dele denunciado no ar.

De então em diante foi assim. Um domingo: vê se essa calça serve ao senhor. Depois: vê-se o senhor aproveita essa cadeira. Vê se o senhor aproveita esse casaco. No inverno passado: vê se esse cobertor lhe é útil.

Noite dessas cachaça já alta na roda, um colega achou de gracejar chamando-lhe catador bem adotado. Quando viu, estava preso às mãos dos deixa-disso. Cara mais à-toa. Pois se já dera a ele algumas das coisas que ganhara. Ainda vinha com desfeita!

Difícil mesmo, porém, foi a tortura naquelas semanas. Ganhara aquele domingo uma calça com bolsos traseiros. Bonita. Branca. Com o sapato preto na graxa (que ganhara também dela) ficaria vistoso!

O exame mais minucioso da calça revelou-lhe o relógio de bolso. Bonito. Aniquilado. Impacto assentado, lustrou-o Deu-lhe corda. A máquina pôs-se a trabalhar. Os colegas diziam que não fosse besta de devolver. Passou as semanas atormentadamente pensando. Os colegas instigando-o a apreçar o relógio.

No domingo da coleta na casa: dona, esse relógio veio no bolso daquela calça. Chorou lágrimas copiosas ao ver a felicidade da mulher. Os muitos agradecimentos que lhe fazia. O relógio não tinha valor comercial algum. Era uma inestimável lembrança que guardava de seu pai. Um bem de estimação. Dera falta mesmo dele. A casa inteira procurara-o aqueles dias todos.



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