Pelo barulho da campainha ele se denuncia.
Todos convictamente o reconhecem, ainda que não o vejam.
Um estridente prolongado e forte. Ato de mão que se
esquece espalmada esmagando o acionador.
Nada de delicado indicador percutindo um leve
esgar sonoro. A campainha emitindo apenas o dlin da onomatopéia.
Teme-se sempre pela queima da campainha. A
cadeia onomatopaica parece não mais parar. Corre-se
logo atendê-lo. Dizer-lhe que já se sabe dele
ali. Que aguarde. Pois que uma leve demora de atendimento
leva-o a repetir impacientemente o ato.
O carrinho estacionado. Ele, de pé,
olhar espetado na porta. O gesto amável. O riso aberto.
O boné acanhadamente erguido pela aba, sem descobrir
a cabeça. O corpo inclinando-se levemente na reverência.
Desculpa-se pelo incômodo. A senhora (o patrão,
às vezes) atendia-o
A casa, decerto, ficara como ponto fixo seu.
Mais catador nenhum ali pedia. Pactos. O submundo acordando
formas de subsistir.
A colheita ali consiste substancialmente em
jornais. O povo da casa parece gostar deles. A cada duas semanas,
recolhe-os. A dona da casa sempre adiciona caixas de papelão
várias. E ele, sempre manifestamente entusiasmado,
vai agradecendo a tudo. Tem aceitado até o que não
lhe serve. Pois se há algo que não quer é
contrariar a dona. Atira, depois, ao lixo, garrafas descartáveis
latas de leite em pó. Coisas que ela também
atenciosamente lhe reserva. Ele não sabe lhe dizer
disso não preciso, senhora. Lembra-se no capricho diário
da senhora em ir juntando para ele aquilo tudo. Decerto, preocupando-se
com ele. Não, isso não jogo no lixo, é
coisa que presta ao meu catador. E lhe armazena as muitas
coisas. E ainda mais. Sem que ele lhe pedisse, deu de dar-lhe
o que comer. Primeira vez foi um suculento prato de churrasco.
Faziam uma festinha de aniversário. Era uma festa discreta.
Mesmo nada se perceberia, não fosse o leve cheiro dele
denunciado no ar.
De então em diante foi assim. Um domingo:
vê se essa calça serve ao senhor. Depois: vê-se
o senhor aproveita essa cadeira. Vê se o senhor aproveita
esse casaco. No inverno passado: vê se esse cobertor
lhe é útil.
Noite dessas cachaça já alta
na roda, um colega achou de gracejar chamando-lhe catador
bem adotado. Quando viu, estava preso às mãos
dos deixa-disso. Cara mais à-toa. Pois se já
dera a ele algumas das coisas que ganhara. Ainda vinha com
desfeita!
Difícil mesmo, porém, foi a
tortura naquelas semanas. Ganhara aquele domingo uma calça
com bolsos traseiros. Bonita. Branca. Com o sapato preto na
graxa (que ganhara também dela) ficaria vistoso!
O exame mais minucioso da calça revelou-lhe
o relógio de bolso. Bonito. Aniquilado. Impacto assentado,
lustrou-o Deu-lhe corda. A máquina pôs-se a trabalhar.
Os colegas diziam que não fosse besta de devolver.
Passou as semanas atormentadamente pensando. Os colegas instigando-o
a apreçar o relógio.
No domingo da coleta na casa: dona, esse relógio
veio no bolso daquela calça. Chorou lágrimas
copiosas ao ver a felicidade da mulher. Os muitos agradecimentos
que lhe fazia. O relógio não tinha valor comercial
algum. Era uma inestimável lembrança que guardava
de seu pai. Um bem de estimação. Dera falta
mesmo dele. A casa inteira procurara-o aqueles dias todos.