Home
|
Conheça Tito Damazo
|
Textos
|
Contato
|



Rumores
Data 20/out/1999

O rumores múltiplos. Os rumores múltiplos e suas razões. Uns, por força da sua própria condição de ser. Vêm pelas frinchas das janelas. Pelos telhados. Pelas paredes.

Coisas de moradas normais incapazes de vetar a algazarra matutina dos pardais. Não capazes de impedir os gritos ensolarados dos bem-te-vis. Os arrulhos melancólicos das pombas. Os múltiplos trinados do sabiá. O ecletismo do gorjeio da corruíra. Os agudos estrídulos das maritacas, dos periquitos. Vão, manhãzinha mal rompe, vazando paredes, janelas, telhados. E tanto fazem que, muita vez, despertam homens.

Também dessa força da condição de ser chegam os múltiplos latidos e, às vezes, uivos ("credo! Isso não é coisa boa") dos cães. Os cães da casa. Os cães dos vizinhos. Os cães das cercanias. Ladram ao mínimo barulho que estranhem. Ladram por um faro desencontrado.

E nesta esteira incluem-se ainda os galos. Sim, um lugar já inteiramente civilizado. Entanto, há ainda por ali, raros, quintais e galos. Galos que mal tecem o amanhã. Fica-lhes um pouco mais à mercê a madrugada. Que, se também já não mais é a senhora soberana do silêncio, ainda lhe mantém a hegemonia. Nela, os galos conseguem ouvir. Depois, perdem-se ante o bruto vulto dos barulhos das manhãs urbanas.

Outros são rumores por obrigações de como devem ser. E vêm nada pássaros. Os estardalhaços dos roncos nervosos de motores apressados. As trepidações das carrocerias de pesados caminhões. Os barulhos já familiares de alguns automóveis. Dos ônibus-coletivo. Da infância e adolescência a caminho da escola.

Os rumores da casa. (Jovem, obrigado a acordar de manhãzinha para ir ao trabalho. Estudante noturno. Toda noite acordando, noite alta, a cabeça sobre os livros. Sábado, domingo, as delícias dos rumores da casa acordando-o e com ele ficando na cama). Despertado, não levanta logo. Fica um pouco tentando apreender o rumores que da casa emanam. Rumores bons.

E essa prática ganha dimensão aos fins de semana. Como antigamente. Vai distinguindo a cada um dos rumores. Dormita. Torna à vida e eles, amorosos, revêm, como os cachorros esperando permissão para, festivamente, irem lamber.



Resolução mínima de 800x600 © Copyright 2003, Poetagem - www.poetagem.com.br

Site Produzido por Espaço Cibernético Espaço Cibernético