O rumores múltiplos. Os rumores múltiplos
e suas razões. Uns, por força da sua própria
condição de ser. Vêm pelas frinchas das
janelas. Pelos telhados. Pelas paredes.
Coisas de moradas normais incapazes de vetar
a algazarra matutina dos pardais. Não capazes de impedir
os gritos ensolarados dos bem-te-vis. Os arrulhos melancólicos
das pombas. Os múltiplos trinados do sabiá.
O ecletismo do gorjeio da corruíra. Os agudos estrídulos
das maritacas, dos periquitos. Vão, manhãzinha
mal rompe, vazando paredes, janelas, telhados. E tanto fazem
que, muita vez, despertam homens.
Também dessa força da condição
de ser chegam os múltiplos latidos e, às vezes,
uivos ("credo! Isso não é coisa boa")
dos cães. Os cães da casa. Os cães dos
vizinhos. Os cães das cercanias. Ladram ao mínimo
barulho que estranhem. Ladram por um faro desencontrado.
E nesta esteira incluem-se ainda os galos.
Sim, um lugar já inteiramente civilizado. Entanto,
há ainda por ali, raros, quintais e galos. Galos que
mal tecem o amanhã. Fica-lhes um pouco mais à
mercê a madrugada. Que, se também já não
mais é a senhora soberana do silêncio, ainda
lhe mantém a hegemonia. Nela, os galos conseguem ouvir.
Depois, perdem-se ante o bruto vulto dos barulhos das manhãs
urbanas.
Outros são rumores por obrigações
de como devem ser. E vêm nada pássaros. Os estardalhaços
dos roncos nervosos de motores apressados. As trepidações
das carrocerias de pesados caminhões. Os barulhos já
familiares de alguns automóveis. Dos ônibus-coletivo.
Da infância e adolescência a caminho da escola.
Os rumores da casa. (Jovem, obrigado a acordar
de manhãzinha para ir ao trabalho. Estudante noturno.
Toda noite acordando, noite alta, a cabeça sobre os
livros. Sábado, domingo, as delícias dos rumores
da casa acordando-o e com ele ficando na cama). Despertado,
não levanta logo. Fica um pouco tentando apreender
o rumores que da casa emanam. Rumores bons.
E essa prática ganha dimensão
aos fins de semana. Como antigamente. Vai distinguindo a cada
um dos rumores. Dormita. Torna à vida e eles, amorosos,
revêm, como os cachorros esperando permissão
para, festivamente, irem lamber.