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João Cabral de Melo Neto
Data 10/out/1999

Neste fim de semana, sábado passado, morreu o maior poeta vivo do Brasil e da língua portuguesa, João Cabral de Melo Neto. Popularmente, Cabral ficou conhecido por seu poema-livro "Morte e Vida Severina". Entretanto, escreveu outros livros que, em termos estéticos, são muito superiores àquele. Como exemplo, cito sua obra-prima "A Educação pela Pedra". Mas outros primores que ficarão para todo o sempre enlevando a literatura brasileira foram também escritos por ele: "A Escola das facas", "Serial", "Agrestes", "Crime na Calle Relator", "Auto do frade", "Museu de tudo", "O cão sem plumas", "O rio", "Psicologia da composição" etc. Citei-os assim mesmo, aleatoriamente, sem ordem cronológica, que são poesias vivas, imortais. Estão reunidas em algumas edições de suas obras completas. A primeira foi editada pela José Olympio em 1968. A mais tradicional e especializada neste tipo de trabalho é a Editora Nova Aguilar. Suas obras completas de João Cabral de Melo Neto saiu na década de 90. O MEC/FNDE, com edição da Nova Fronteira distribuiu às escolas públicas estatais as obras completas de Cabral em dois volumes. A poesia de Cabral é rigorosamente elaborada. Uma linguagem altamente poética, mas também altamente reflexiva, de modo que sua compreensão se dá a partir de leituras atentas. Em "Catar feijão", um dos poemas de "Educação pela Pedra", pode-se buscar o rigor e exigência de sua poesia nesses versos: "a pedra dá à frase seu grão mais vivo:/ obstrui a leitura fluviante, flutual,/açula a atenção, isca-a com o risco." Aqui, em Penápolis, reside um dos melhores intérpretes e estudiosos da poesia de João Cabral. Trata-se do prof. Dr. José Fulaneti de Nadai, cujo mestrado: "O deus da sede: uma análise de "Paisagens com figuras" de João Cabral de Mel Neto, USP, 1978 e doutorado "A voz alta de João Cabral", USP, 1994, são tidos como dois dentre alguns excelentes estudos feitos em torno da obra de João Cabral. Publico aos leitores desta coluna um poema não ontológico, logo, não muito visto e conhecido, para que se possa verificar a grandeza dessa poesia ainda não satisfatoriamente assimilada. O poema integra a obra "Escola das facas", 1980.

Forte de Orange, Itamaracá

A pedra bruta da guerra,
seu grão granítico, hirsuto,
foi toda sitiada por
erva-de-passarinho, musgo.
Junto da pedra que o tempo
rói, pingando como um pulso,
inroído, o metal canhão
parece eterno, absoluto.
Porém o pingar do tempo
pontual, penetra tudo;
se seu pulso não se sente,
bate sempre, e pontiagudo,
e a guerrilha vegetal
no seu infiltrar-se mudo,
conta com o tempo, suas gotas
contra o ferro inútil, viúvo.
E um dia os canhões de ferro,
sua tesão vã, dedos duros,
se renderão ante o tempo
e seu discurso, ou decurso:
ele fará, com seu pingo
inestancável e surdo,
que se abracem, se penetrem,
se possuam, ferro e musgo.



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