Dissera com explosão ser mais que a
hora de pôr um fim naquilo. Sentia-se o próprio
senhor da "casa da mãe Joana"! Parecia-lhe
que todos o miseráveis; todos os destituídos;
todos os viciados; todos os mendigos; todos os andarilhos;
todos os desempregados; todos os malandros; todos os vadios;
todos os sacanas! batiam palma frente ao portão de
sua casa. Premiam com exigência a campainha. E pediam,
e clamavam, e imploravam. Uma ciranda de cenas. Teatro vivo
na sua calçada, tendo como espectador os de dentro
de casa. Mais que espectadores, presas a serem conquistadas,
a serem sensibilizadas pelo ardil ataque; otários,
objetos do ludíbrio.
Todos têm um enredo. Enunciam uma história
sempre sinistra: uma desventura, casos de desemprego, desafetos,
doenças abruptas. E querem real: 1 real para comprar
leite para as crianças; 5 real para comprar o gás;
3 real para completar passagem; l0 real para pagar remédio
na farmácia para o filho que está com pneumonia...
Raro o que prescinde do real e requer comida,
se diz com fome e ali mesmo recostado à árvore,
ao muro, sob a sombra detona a fome com o que lhe doam.
Havia que pôr um fim naquilo. Empenhou-se
em persuadir a família. A romaria tinha ido muito além
dos limites. Esmola, pouca que fosse, abria espaço
à horda de aproveitadores. Nenhum dinheiro. Comida
e ponto. Não aceitando, passar bem! Nem mesmo alimento
in natura, não cozido. Pedidos dessa ordem deveriam
igualmente ser rechaçados. Era coisa -- prato feito
-- para ser comida logo. Ali ou alhures. Alimento pronto,
por isso sujeito a perecer a pouco.
Concorde, a família pôs em vigor
aquela deliberação. Resolutos, atendiam aos
peditórios, cada qual decidindo sem prévia consulta.
Posto houvesse a prescrição
de conduta, surgiam casos que escapavam aos paradigmas estabelecidos.
Um: surdo, cego, mudo apresentando objeto para ser "comprado".
Buscam dinheiro. Dois: pedintes requintados: instituições
filantrôpicas apelando às almas abnegadas cuja
altivez se sensibiliza diante de tão altruísta
causa. Então, esperam contribuição generosa.
E as instituições filantrópicas, as temos
a mancheias, e o condenados a elas, os há como moscas.
Caso desses sui generis apareceu certa feita.
O filho obrigou-se a consultar o pai. Tratava-se de sujeito
que pedia dinheiro, mas chorando copiosamente, aos soluços,
coisa de um dó doido que dá na gente, dissera
ao pai o filho.
Indagou do que se tratava, A família,
mulher e duas filhinhas morriam de fome e não havia
gás. Estava desempregado. Manteve-se irredutível.
Não se deixaria levar. Aquilo era cena. Pôr dinheiro
choram e soluçam se preciso for. O rapaz insistia e,
súbito, caiu de joelhos, mãos postas, as lágrimas
lavando-lhe a cara, os soluços entrecortando suas lamúrias
e juras.
Foi-se embora o danado artista com o dinheiro
do gás e uns troquinhos a mais.