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Cena brasileira
Data 27/set/1999

Dissera com explosão ser mais que a hora de pôr um fim naquilo. Sentia-se o próprio senhor da "casa da mãe Joana"! Parecia-lhe que todos o miseráveis; todos os destituídos; todos os viciados; todos os mendigos; todos os andarilhos; todos os desempregados; todos os malandros; todos os vadios; todos os sacanas! batiam palma frente ao portão de sua casa. Premiam com exigência a campainha. E pediam, e clamavam, e imploravam. Uma ciranda de cenas. Teatro vivo na sua calçada, tendo como espectador os de dentro de casa. Mais que espectadores, presas a serem conquistadas, a serem sensibilizadas pelo ardil ataque; otários, objetos do ludíbrio.

Todos têm um enredo. Enunciam uma história sempre sinistra: uma desventura, casos de desemprego, desafetos, doenças abruptas. E querem real: 1 real para comprar leite para as crianças; 5 real para comprar o gás; 3 real para completar passagem; l0 real para pagar remédio na farmácia para o filho que está com pneumonia...

Raro o que prescinde do real e requer comida, se diz com fome e ali mesmo recostado à árvore, ao muro, sob a sombra detona a fome com o que lhe doam.

Havia que pôr um fim naquilo. Empenhou-se em persuadir a família. A romaria tinha ido muito além dos limites. Esmola, pouca que fosse, abria espaço à horda de aproveitadores. Nenhum dinheiro. Comida e ponto. Não aceitando, passar bem! Nem mesmo alimento in natura, não cozido. Pedidos dessa ordem deveriam igualmente ser rechaçados. Era coisa -- prato feito -- para ser comida logo. Ali ou alhures. Alimento pronto, por isso sujeito a perecer a pouco.

Concorde, a família pôs em vigor aquela deliberação. Resolutos, atendiam aos peditórios, cada qual decidindo sem prévia consulta.

Posto houvesse a prescrição de conduta, surgiam casos que escapavam aos paradigmas estabelecidos. Um: surdo, cego, mudo apresentando objeto para ser "comprado". Buscam dinheiro. Dois: pedintes requintados: instituições filantrôpicas apelando às almas abnegadas cuja altivez se sensibiliza diante de tão altruísta causa. Então, esperam contribuição generosa. E as instituições filantrópicas, as temos a mancheias, e o condenados a elas, os há como moscas.

Caso desses sui generis apareceu certa feita. O filho obrigou-se a consultar o pai. Tratava-se de sujeito que pedia dinheiro, mas chorando copiosamente, aos soluços, coisa de um dó doido que dá na gente, dissera ao pai o filho.

Indagou do que se tratava, A família, mulher e duas filhinhas morriam de fome e não havia gás. Estava desempregado. Manteve-se irredutível. Não se deixaria levar. Aquilo era cena. Pôr dinheiro choram e soluçam se preciso for. O rapaz insistia e, súbito, caiu de joelhos, mãos postas, as lágrimas lavando-lhe a cara, os soluços entrecortando suas lamúrias e juras.

Foi-se embora o danado artista com o dinheiro do gás e uns troquinhos a mais.



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