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Água
Data 13/set/1999

A Terra é mais água. Somos água. E da Terra. Terraquáticos. A água é pura proteção do homem. Nos envolve desde quando ainda não somos. E não mais nos deixa. Companheira desde a composição. Não há como arredá-la, sem que nos deixemos de ser nós mesmos. Só à terra, morada do tempo, ela nos entrega. E aos poucos, até que vença o puro pó da terra.

Como é Terra, não se entrega como dom da vida somente ao filho homem. Sede é uma necessidade do seres. E se espalha feito dádiva e se espraia em mares, rios, lagos, lagoas, açudes e cacimbas, e poças. Tão terra é, que se faz também água intestina. Em poços é que sua velada luz se descortina.

Água é feminino não só no léxico. Também o é quanto ao nexo. A relação entre si e o homem, quando a buscamos como banho, é múltipla. Tome-se o homem com a água de um rio, do mar, ou ainda, mais comum nestes dias, com a água de piscina.

Ela aí lhe é terápica. Medicina preventiva. E curativa. Torna o homem leve, solto, desprendido de si, envolto de seu doce balouço, vestido de seu líquido gasalho. É banho mais que do corpo; aí a água lava a alma.

Mas é também, além de feminina, fêmea. Sua doce carícia, sensualiza. A água de banho de piscina, talvez porque mais se suaviza -- o que nem sempre é o rio, e o mar quase nunca é --, afaga o homem em contínuo. Afago de tempo único. Roça por inteiro o pêlo do homem, deixando-o enlanguecidamente teso. Toca-lhe o nervo do desejo de não mais deixar aquele berço. É água, esta, capaz de tornar o homem pura ilusão. O lúdico que ela carrega, o invade com abusão.

Água é pura potência. Não há revolução que a deponha. Há mesmo quem diga ser a mão direita de Deus. Mas neste seu império se faz muito e muito mais como servo. Para a regalia do homem; este pobre.



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