A Terra é mais água. Somos água.
E da Terra. Terraquáticos. A água é pura
proteção do homem. Nos envolve desde quando
ainda não somos. E não mais nos deixa. Companheira
desde a composição. Não há como
arredá-la, sem que nos deixemos de ser nós mesmos.
Só à terra, morada do tempo, ela nos entrega.
E aos poucos, até que vença o puro pó
da terra.
Como é Terra, não se entrega
como dom da vida somente ao filho homem. Sede é uma
necessidade do seres. E se espalha feito dádiva e se
espraia em mares, rios, lagos, lagoas, açudes e cacimbas,
e poças. Tão terra é, que se faz também
água intestina. Em poços é que sua velada
luz se descortina.
Água é feminino não só
no léxico. Também o é quanto ao nexo.
A relação entre si e o homem, quando a buscamos
como banho, é múltipla. Tome-se o homem com
a água de um rio, do mar, ou ainda, mais comum nestes
dias, com a água de piscina.
Ela aí lhe é terápica.
Medicina preventiva. E curativa. Torna o homem leve, solto,
desprendido de si, envolto de seu doce balouço, vestido
de seu líquido gasalho. É banho mais que do
corpo; aí a água lava a alma.
Mas é também, além de
feminina, fêmea. Sua doce carícia, sensualiza.
A água de banho de piscina, talvez porque mais se suaviza
-- o que nem sempre é o rio, e o mar quase nunca é
--, afaga o homem em contínuo. Afago de tempo único.
Roça por inteiro o pêlo do homem, deixando-o
enlanguecidamente teso. Toca-lhe o nervo do desejo de não
mais deixar aquele berço. É água, esta,
capaz de tornar o homem pura ilusão. O lúdico
que ela carrega, o invade com abusão.
Água é pura potência.
Não há revolução que a deponha.
Há mesmo quem diga ser a mão direita de Deus.
Mas neste seu império se faz muito e muito mais como
servo. Para a regalia do homem; este pobre.