Sim. Era ele mesmo. Às ordens. Para
mim? Estranhou o volumoso da correspondência. A mando
de quem? O carteiro não sabia. Como, não há
remetente? Não havia. Isso era legal, o Correio admitia
tal procedimento?
O carteiro pediu-lhe o obséquio da
pressa. Havia ainda muito por fazer com apenas meio período.
Era sábado.
Quem lhe teria remetido aquilo? Um pacote
retangular, leve. Parecia vazio, acondicionando nada. Pô-lo
sobre a mesa de centro da sala. Invólucro de papelão
feito a fita crepe. Precisava de uma tesoura. Não a
sabia, porém. E a mulher não estava em casa.
Tampouco ninguém. A faca de pão substituiria
a tesoura a contento.
Entanto, faca já em punho, teve um
leve tremor. Inimigos não faltam. E vários casos
havia a respeito. Cartas-bomba cuja enganosa subscrição
conduziam o destinatário ao assassínio. Afinal,
nada encomendara por correspondência. Aliás,
nunca se valera disto. Vida pacata. Parcas economias controladas.
O Correio restringia-se para as cartas.
Então, mais o medo crescera. Que se
lembrasse, não possuía inimigos declarados.
Vida pacata. De casa para o trabalho. Do trabalho para casa.
Discussões mais acaloradas entre companheiros, apenas
quando o papo descambava para futebol. Aí engrossava
a voz. Discorria a respeito de tudo que desse tema fosse abordado.
Aficionado do esporte preferência nacional e corintiano.
De casa para o trabalho, demorava-se, algumas
vezes, num boteco de corintiano. Ali, o pessoal do truco,
da bocha e do bilhar, quase todos, eram corintianos. Então
as divergências futebolísticas, regadas a cachaça
e cerveja, recaíam na preferência de jogadores.
Discussões soltas, descomprometidas. Não havia,
pois, razões para temer inimigos.
Mas a absoluta falta de justificativa para
o recebimento do pacote e a incógnita de seu remetente
impediam-no de abri-lo. Pensou desfazer-se dele. Antes mesmo
que o pessoal de casa chegasse. Mas também temeu pelos
outros. E a irresolução deu tempo à chegada
dos de casa, logo inteirados de tudo. O filho estudante de
advocacia se propôs a contatar dois amigos entendidos
do caso.
Longas horas depois de rigoroso ritual, a
caixa foi aberta. Sem estouros. Não portava nenhuma
bomba. E estaria absolutamente vazia, não fosse um
cartão branco quase do tamanho dela ali contendo alguns
dizeres. Ele tomou do cartão que lhe apresentava em
letras maiúsculas e multicoloridas a frase:
ALIVIE-SE, CARA-PÁLIDA, FUI EU QUE
MORRI.
E, por alguns segundos, ele, cara pálida,
a fitar as caras interrogativas esperando e a sua perplexidade
ante aquela frase tão enigmática quanto o invólucro
que a contivera.