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O Choro
Data 30/ago/1999

Homem não chora. Choro é coisa para mulher. O choro tolhe ao homem o ordenamento de si mesmo. Firme-se. Engula a dor. Nada de lágrimas. Elas podem explodir em fêmea. Nunca em face de macho.

Esta a atmosfera cultural em que crescera. E a cultuara, como os demais meninos de seu tempo; como os demais adolescentes de seu tempo; como os demais rapazes de seu tempo. Homem feito, ficara o vezo e a formação. Mesmo quando soube e compreendeu-o como nocivo muita vez.

De certo, esteado na formação, entanto já dela plenamente ajuizado, dominara o machismo, sem que o extinguisse. O advento do feminismo quase em nada mudou esse estado. Todavia, chorar permanecia um ato impensável.

Tendia a consolador dos aflitos e deseperançados. Condoía-se perante qualquer choro. Choro doía-lhe no âmago. Prostrava-o Atroz sofrimento advinha-lhe. E durante um longo tempo não o perdia. Seguia-lhe atado à sua audição. A azáfama atordoante da rua, do espaço que fosse, entretanto, o choro ali pespegado ao seu ouvido.

Sim, choro de mulher amolece um homem. Torna-o terno, pronto a entregar-se solidário, compassivo. Tacitamente está a suplicar que o choro cesse. Demovê-lo logo é o que quer. Sobretudo, isso, se se encontra descontextualizado ao choro. Há choros, a quem tem completo domínio de seu contexto, que irritam, e não condoem.

Choro mais condoído, contudo: choro de criança de cão. Criança chorando mexe com a gente. Não o choro forçadamente estratégico lá delas. Choro puro. Choro sentido. Saído do fundo de alma magoada. Choro que, findo, ainda é cinza ativa em entremeados suspiros estremecidos.

Assim, o ganir de um cão. A dor põe-no num choro tão comovente, que impossível ignorá-lo. Abala, como aqueles de criança. Dor de cão feita em ganir esganiçado intenso fere.

O choro, qualquer choro desses, punha o comovido como o quê! Serviçal, solícito, pronto, ávido a acabar logo com aquilo. Mas, nada de lágrimas. Assim se lhe dera quando das dores mais lacerantes. Adolescente ainda, a perda do primeiro grande amor. A atordoante morte de alguns amigos. A morte do pai. Dor muita. Vazio inexplicável. Mas lágrimas nenhuma. Ouve mesmo ocasiões destas que as quis. Zozinho, escoimado das vistas alheias, que elas esvaíssem como bálsamo possível. Mas nada. Não aprendera a chorar. E as lágrimas dão-se apenas aos que sabem chorar.

Não choraria? Desapareceria sem essa experiência? Como saber. Talvez lhe estivesse o choro reservado para uma provação ainda maior, muito pior. E então temia-o mais. O choro, fácil a uma mulher, a uma criança, poderia vir a ser-lhe dor incomensurável.

Medo de chorar, empedernido conflito de homem.



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