Homem não chora. Choro é coisa
para mulher. O choro tolhe ao homem o ordenamento de si mesmo.
Firme-se. Engula a dor. Nada de lágrimas. Elas podem
explodir em fêmea. Nunca em face de macho.
Esta a atmosfera cultural em que crescera.
E a cultuara, como os demais meninos de seu tempo; como os
demais adolescentes de seu tempo; como os demais rapazes de
seu tempo. Homem feito, ficara o vezo e a formação.
Mesmo quando soube e compreendeu-o como nocivo muita vez.
De certo, esteado na formação,
entanto já dela plenamente ajuizado, dominara o machismo,
sem que o extinguisse. O advento do feminismo quase em nada
mudou esse estado. Todavia, chorar permanecia um ato impensável.
Tendia a consolador dos aflitos e deseperançados.
Condoía-se perante qualquer choro. Choro doía-lhe
no âmago. Prostrava-o Atroz sofrimento advinha-lhe.
E durante um longo tempo não o perdia. Seguia-lhe atado
à sua audição. A azáfama atordoante
da rua, do espaço que fosse, entretanto, o choro ali
pespegado ao seu ouvido.
Sim, choro de mulher amolece um homem. Torna-o
terno, pronto a entregar-se solidário, compassivo.
Tacitamente está a suplicar que o choro cesse. Demovê-lo
logo é o que quer. Sobretudo, isso, se se encontra
descontextualizado ao choro. Há choros, a quem tem
completo domínio de seu contexto, que irritam, e não
condoem.
Choro mais condoído, contudo: choro
de criança de cão. Criança chorando mexe
com a gente. Não o choro forçadamente estratégico
lá delas. Choro puro. Choro sentido. Saído do
fundo de alma magoada. Choro que, findo, ainda é cinza
ativa em entremeados suspiros estremecidos.
Assim, o ganir de um cão. A dor põe-no
num choro tão comovente, que impossível ignorá-lo.
Abala, como aqueles de criança. Dor de cão feita
em ganir esganiçado intenso fere.
O choro, qualquer choro desses, punha o comovido
como o quê! Serviçal, solícito, pronto,
ávido a acabar logo com aquilo. Mas, nada de lágrimas.
Assim se lhe dera quando das dores mais lacerantes. Adolescente
ainda, a perda do primeiro grande amor. A atordoante morte
de alguns amigos. A morte do pai. Dor muita. Vazio inexplicável.
Mas lágrimas nenhuma. Ouve mesmo ocasiões destas
que as quis. Zozinho, escoimado das vistas alheias, que elas
esvaíssem como bálsamo possível. Mas
nada. Não aprendera a chorar. E as lágrimas
dão-se apenas aos que sabem chorar.
Não choraria? Desapareceria sem essa
experiência? Como saber. Talvez lhe estivesse o choro
reservado para uma provação ainda maior, muito
pior. E então temia-o mais. O choro, fácil a
uma mulher, a uma criança, poderia vir a ser-lhe dor
incomensurável.