Foi para o automóvel tolhido de frio.
Um minuano visitando os sítios paulistas incomodando.
Expor-se a ele o menos possível. A frente do automóvel
em sua direção. Então, ao abrir a porta
foi que viu. Instantes em que ignorou por completo o insolente
visitante. Já o frio não percebia. Pássaro,
presa do seu encanto.
Um objeto estranho a evocar a Lua. Pois, que
se lembrasse, na sua maioridade,--- e esforçou-se um
pouco na escavação do tempo, nunca a tivera
assim.
Do automóvel imóvel a contemplá-la.
Talvez assim fitassem objeto não identificado. Absoluta
absorção. Figurou-se-lhe barcaça flutuando
naquele mar de águas empretecidas.
Era mesmo a Lua! Mas tamanha metade assim?!
Tornado a si, reparou. O cotidiano escorria. O bar em ebulição.
Ir e vir de gente, automóveis, ônibus, bicicletas.
Ninguém olhando para aquela nave tamanha. Todavia,
não estava diante da normalidade. Crescente nenhuma
houvera já assim. Ou fora ele sempre cotidiano numa
dessas ocasiões em que assim, silente, acima e discretíssima
a lua passasse?
Na saída, referiu-se ao porteiro. Esse
relanceou o céu, assentiu também com rapidez
e tornou ao seu mundo.
Fora indo embora. Entre embevecido e atordoado
ante tudo. A magnífica disformidade da lua instalada.
A absoluta indiferença dos homens.
A avenida que demandava a casa ia sempre reta.
A Lua bem de frente. Lá no horizonte. Como se o aguardasse.
Nunca fora tão devagar para casa. Pássaro, presa
daquele encantamento.
Ia. Devagar e bem rente à sua direta.
A lua, barca enorme atravessada lá no fim daquela rua-rio.
Parecia encalhada. Presa. Tal o seu tamanho. Não translúcida.
Baça luz. Não submergia, como faz o sol. Soerguia-se
paulatinamente.
Então, súbita desconfiança.
Apressou-se. Em casa, indagou da mulher. Apressado, fora conduzindo-a
para a rua. Ali, encantados, trocando pareceres, considerando
detalhes.
E a lua indo para cima. Cada vez menor, quanto
mais subia. Até que, completamente verticalizada, uma
Crescente do tamanho da indiferença do cotidiano.