O vento de agosto fustiga as árvores.
E o espaço fica impregnado das vozes delas. Vozes veludosas
vozes de árvores manifestando dor ou gozo. Ou gozo
e dor ante esse vento viril.
É inverno, tempo de cio da Terra. O
céu se veste de um azul caiado. Mal lembra a nuvens.
E o vento açoitando feito um galo.
Tempo de recolhimento. A natureza mesma se
encolhe toda. Vai ao arrepio do frio. O sereno. A garoa. O
orvalho. A geada. Ajudam o vento a pôr a natureza muda.
O inverno é refratário. Estação
avessa a calor. Estação a que se nega calor.
Andarilho soturno repelido. Andarilho crispado a afetos.
Vem com seus látegos de vento lambando.
Suas armas brancas lancinantes lacerando carnes desabrigadas.
Ressequindo árvores. Matando bichos. Matando mendigos.
Gente dormindo junto contra o inimigo.
O inverno decreta estado de sítio.
São proibidos muitos afazeres. Tudo impregna-se de
um gosto de frio. O espaço fica minado de preguiça
de inverno. Contra o inverno a grande arma do homem é
o conchego. Conchego é a estaca certa contra a sede
desse vampiro. Inverno é tempo bom de cama.
A campainha soa débil. A menina no
portão era só tremedeira e olhos esbugalhados.
O corpo todo côncavo pelo frio. Ao atender à
porta, a mulher teve um susto. Tornou a casa. Voltou com um
cobertor surrado. Agasalhada, a menina acocorou-se. Mudezes.
A mulher tornou a entrar. Fechou a porta. O frio medonho.
Tez tempo. Voltou a ver. Menina de cócoras com olhos
esbugalhados.
A família soube. A mulher levou chocolate
fumegando. Foram dois sorvos para esvaziar a caneca. Depois
deitou-se de lado. Os olhos esbugalhados na porta. A família
soube.
Foi recolhida no quartinho do fundo. O colchão,
cobertores, os petrechos amontoados aqueceram o sonho de sono
protegido.
E aqueles olhos esbugalhados ganharam contorno,
cílios, brilhos para sempre.
De vez em quando história de infeliz
tem final feliz na vida.