Ferreira Gullar é um dos maiores poetas
brasileiros vivos. Consagrado pela crítica, que sempre
esteve atenta às suas obras. Gullar é, além
de poeta exponencial da literatura brasileira, um intelectual
ativo, polêmico, crítico de arte, autor de algumas
peças teatrais, sendo uma das mais destacadas a que
escreveu em coautoria com Dias Gomes: Dr. Getúlio.
Gullar foi um dos criadores do movimento Neoconcreto
que divergia em alguns aspectos com o Concretismo de Haroldo
e Augusto de Campos e Décio Pignatari, do qual participou
por pouco tempo. Depois também rompeu com o Neoconcretismo,
entendendo que a poesia deve ser fundamentalmente empenhada,
participante. E foi nessa linha que se consagrou.
Dentro da Noite Veloz foi o livro de grande
repercussão nacional da sua poesia. A obra-prima, no
entanto, foi escrita no exílio, Argentina, país
para o qual se mudou do Chile, onde já estava exilado
por problemas com o regime militar brasileiro de 1964. Trata-se
de Poema Sujo, publicado no Brasil em 1975.
Seu último livro de poesia havia sido
publicado em 1987: Barulhos. Recentemente, volta a publicar
outro, denominado Muitas Vozes, também aclamado pela
crítica. É dele que publico o poema cujo título
é o mesmo da obra.
Muitas Vozes
Meu poema
é um tumulto:
a fala
que nele fala
outras vozes
arrasta em alarido.
(estamos todos nós
cheios de vozes
que o mais das vezes
mal cabem em nossa voz:
se dizes pera,
acende-se um clarão
um rastilho
de tardes e açúcares
ou
se azul disseres,
pode ser que se agite
o Egeu
em tuas glândulas)
A águas que ouviste
num soneto de Rilke
os ínfimos
rumores no capim
o sabor
do hortelã
(essa alegria)
a boca fria
da moça
o maruim
na poça
a hemorragia
da manhã
tudo isso em ti
se deposita
e cala.
Até que de repente
um susto
ou uma ventania
(que dispara o poema)
chama
esses fósseis à fala.
Meu poema
é um tumulto, um alarido:
basta apurar o ouvido.