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Indução
Data 02/jul/1999

Num átimo tudo. Arrebatada que estava pela história. Do sentido da vida falavam as personagens. Tratavam, no instante, do processo evolutivo Uma farsa! Não, um fato. Farsa são os procedimentos do homem. Evolução é outra coisa.

Mínimo barulho. O revólver contra ela. O indicador na boca determinando silêncio. Fê-la erguer-se. Sequer fechar a obra. Nas páginas abertas a discussão compondo o texto da história. Ainda gira em torno da evolução da vida. A consciência desanimalizou o homem. Qual! Um bicho metido a progresso. Mais um pouco e o sidério de Deus está sob seu domínio. Dizima-se antes, que cada avanço mata-nos mais. Qual! Obtusidade.

Seu quarto. Pasmava-a que ali estivesse. Os olhos estatelados nele. Na negra contundência do revólver. Sussurrou mato-a e a mim em seguida. Nenhum movimento. Nenhuma fala. O falar era dele somente.

Felinamente, indo até ela. Antes, dois giros à chave da porta. Rente, a sua máscula figura. A distância demarcada pelo tamanho do revólver. Médio tamanho. Não sabia de marca de revólver. Sabia-o negro e assassino. O cão aberto. O cano contundente em seu baixo ventre. O jérsei da camisola não lhe permitia a frieza do metal. Ele insistindo na ordem de silêncio. Já lhe fora o tremor inicial. Aquele cheiro dele sorvido pela sua ofegação denunciada.

Num leve repelão contraiu-se ante a mão pousada em seu ombro. O sussurro lembrou-lhe o revólver. Lembrou-lhe a tragédia possível. O ventre voltou a sentir o revólver.

Nas páginas, indiferentes, as personagens já não discutiam. Cada qual na sua poltrona. Guardavam o seu silêncio tecido a uísque e cigarros. A evolução da vida, agora, exigia-lhes cogitação. Ensimesmados já há bom tempo. A narrativa deu-se a outras notações. Tornada a eles, deparou-se com a mesmice.

A mão passou a movimentar-se. Rígida maciez roçando-lhe a nuca. Indo os dedos a massagear-lhe os cabelos. E veio à face em carícias. A mão reiteradamente circulando, como um sopro, o seu rosto. E veio ao colo. E foi-lhe aos seios. De um a outro, rondeando-os tepidamente, massageando sutilmente os mamilos. E resvalou-se para o torso. Ela ofegando, olhos semicerrados. E pelas nádegas passeou, passeou. Agora o murmúrio era dela. E a mão ia-lhe pelas coxas, vinha às nádegas, deslizava espinha acima até a nuca. E voltava. E vinha. E semiconscientemente apurou que eram duas as mãos. Mas o revólver mantinha-se. Sim, perpendicular, sim, não mais agudo. Roçando-lhe o púbis. Triscando pelo clitóris. E a maciez das mãos percorrendo-a.

Ela, então, lábios entreabertos, resfolegando, pedia, pedia atire! atire!

E então, súbito, ele recolheu-se. Derreou aquele revólver. E disse não.

Vou-me com a tua verdade. Deixo-te as minhas marcas, enfim. Agora, quando quiseres viver, venha assaltar-me.



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