Num átimo tudo. Arrebatada que
estava pela história. Do sentido da vida falavam as
personagens. Tratavam, no instante, do processo evolutivo
Uma farsa! Não, um fato. Farsa são os procedimentos
do homem. Evolução é outra coisa.
Mínimo barulho. O revólver contra
ela. O indicador na boca determinando silêncio. Fê-la
erguer-se. Sequer fechar a obra. Nas páginas abertas
a discussão compondo o texto da história. Ainda
gira em torno da evolução da vida. A consciência
desanimalizou o homem. Qual! Um bicho metido a progresso.
Mais um pouco e o sidério de Deus está sob seu
domínio. Dizima-se antes, que cada avanço mata-nos
mais. Qual! Obtusidade.
Seu quarto. Pasmava-a que ali estivesse. Os
olhos estatelados nele. Na negra contundência do revólver.
Sussurrou mato-a e a mim em seguida. Nenhum movimento. Nenhuma
fala. O falar era dele somente.
Felinamente, indo até ela. Antes, dois
giros à chave da porta. Rente, a sua máscula
figura. A distância demarcada pelo tamanho do revólver.
Médio tamanho. Não sabia de marca de revólver.
Sabia-o negro e assassino. O cão aberto. O cano contundente
em seu baixo ventre. O jérsei da camisola não
lhe permitia a frieza do metal. Ele insistindo na ordem de
silêncio. Já lhe fora o tremor inicial. Aquele
cheiro dele sorvido pela sua ofegação denunciada.
Num leve repelão contraiu-se ante a
mão pousada em seu ombro. O sussurro lembrou-lhe o
revólver. Lembrou-lhe a tragédia possível.
O ventre voltou a sentir o revólver.
Nas páginas, indiferentes, as personagens
já não discutiam. Cada qual na sua poltrona.
Guardavam o seu silêncio tecido a uísque e cigarros.
A evolução da vida, agora, exigia-lhes cogitação.
Ensimesmados já há bom tempo. A narrativa deu-se
a outras notações. Tornada a eles, deparou-se
com a mesmice.
A mão passou a movimentar-se. Rígida
maciez roçando-lhe a nuca. Indo os dedos a massagear-lhe
os cabelos. E veio à face em carícias. A mão
reiteradamente circulando, como um sopro, o seu rosto. E veio
ao colo. E foi-lhe aos seios. De um a outro, rondeando-os
tepidamente, massageando sutilmente os mamilos. E resvalou-se
para o torso. Ela ofegando, olhos semicerrados. E pelas nádegas
passeou, passeou. Agora o murmúrio era dela. E a mão
ia-lhe pelas coxas, vinha às nádegas, deslizava
espinha acima até a nuca. E voltava. E vinha. E semiconscientemente
apurou que eram duas as mãos. Mas o revólver
mantinha-se. Sim, perpendicular, sim, não mais agudo.
Roçando-lhe o púbis. Triscando pelo clitóris.
E a maciez das mãos percorrendo-a.