Torno ao poeta Manoel de Barros. Publico um de seus poemas
constantes do livro Retrato do artista quando coisa. Rio de
Janeiro: Record, 1998, p.13. 2
Bom é corromper o silêncio das
palavras.
Como seja:
1. Uma rã me pedra. ( A rã me
corrompeu para pedra.
Retirou meus limites de ser humano
e me ampliou para coisa. A rã se tornou
o sujeito pessoal da frase e me largou no
chão a criar musgos para tapete de inseto
s e de frades.)
2. Um passarinho me árvore. (O passarinho
me
transgrediu para árvore. Deixou-me aos
ventos e às chuvas. Ele mesmo me bosteia
de dia e me desperta nas manhãs.)
3. Os jardins se borboletam. (Significa que
os jardins se esvaziaram de suas sépalas
e de suas pétalas? Significa que os jardins
se abrem agora só para o buliço das
borboletas?)
4. Folhas secas me outonam. (Folhas seca que
forram o chão das tardes me transmudaram
para outono? ? Eu sou meu outono.)
Gosto de viajar por palavras do que de trem.