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Cárcere
Data 15/mai/1999

Uma fruta bastava-lhe. Comer o menos. Engolir o cuspe para desviar a sede. Antegozar o rancor contido. Zombar da saudade e reverenciar o silêncio. Silêncio crispado. O ódio rondando-o como uma varejeira inevitável. A maçã. As suas formas sensuais. Seus contornos lisos acordando-lhe desejos. Com dentes cuidosos rompia-lhe sua inteireza. E mastigava seu sumo acre-doce. Aqüifazendo a carne vermelha. Devagar, que o estômago sofria de vazio. Acendia-se-lhe súbita repugnância ante farta comida. Era assim com sua auto-escassez a tortura que infligia àqueles homens. Esse fio mínimo de lucidez e devaneio a que se impunha era o seu pau-de-arara a eles. Revide possível. Sua magrez abalava-os.

Os biscoitos de polvilho de sobremesa. Dia de visita era dia de abastecimento. Os semblantes cavernosos dos parentes. Contêm o susto. A ossatura exposta apavora-os. Cheira a morte. Não lhes pode abrir quanto à luta tácita que empreende com os bandidos. Tomarão aquilo como absurdo. Quedas do juízo. Mas há alívio por trás da linhas vincadas de consternação. Está ali localizado. Sabem-no agora. O que não fora algum tempo. Tempo desespero. O medo do pior, que não se diziam, por saberem quietos. Tempo de procura-se vivo ou morto.

E a solitária roendo-lhe a resistência. A noite única. Via somente os seus sonhos. O corpo entorpecido. Uma dor única, insituada. Era um todo dor. Em que ficara não havia os desse mundo. Febre terçã certamente. Tremedeira sem paradeiro. Frio. Voava no inabitável. Sempre lhe tornava a teimosia de arrancar do céu para si a estrela a vésper das suas outras noites e manhãs. O sol como se uma moeda amarela encandecida era sua aura. Um cavalo de léguas tiranas a galope, tanto que suava. Sede insana. E a água pura salobra. Vinha em golfadas do mar à boca. Vomitava o que não havia. Estômago em contratura feroz.

Desaprendera locomover-se. Não ia. Ficara paralisado. Era o que dizia aos criminosos que lhe intimavam a se levantar e ir. A claridade metia-lhe espadas pelos olhos.

Dormiu sem noção. Quando acordou, se pegou assenhoreado de si. Se reconheceu. Resenhou a vida. Estava num velho colchão de mola. A sede. A dor. Debilidade malsã. A pouca claridade ainda feria. Um quase cadáver ficara. Na primeira vez a mãe chorou como se o assim o tivesse. Mas a magrém, descobriu, tornou-se o seu seguro. Os bandidos temiam aquilo. Ofereciam simpatias.

Entanto, determinara: maçã e biscoito de polvilho. Quando fosse embora, deixaria ali o ódio. Enquanto não, regava-o a cada dia de martírio que se lhe sucedia.



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