Uma fruta bastava-lhe. Comer o menos. Engolir o cuspe para
desviar a sede. Antegozar o rancor contido. Zombar da saudade
e reverenciar o silêncio. Silêncio crispado. O
ódio rondando-o como uma varejeira inevitável.
A maçã. As suas formas sensuais. Seus contornos
lisos acordando-lhe desejos. Com dentes cuidosos rompia-lhe
sua inteireza. E mastigava seu sumo acre-doce. Aqüifazendo
a carne vermelha. Devagar, que o estômago sofria de
vazio. Acendia-se-lhe súbita repugnância ante
farta comida. Era assim com sua auto-escassez a tortura que
infligia àqueles homens. Esse fio mínimo de
lucidez e devaneio a que se impunha era o seu pau-de-arara
a eles. Revide possível. Sua magrez abalava-os.
Os
biscoitos de polvilho de sobremesa. Dia de visita era dia
de abastecimento. Os semblantes cavernosos dos parentes. Contêm
o susto. A ossatura exposta apavora-os. Cheira a morte. Não
lhes pode abrir quanto à luta tácita que empreende
com os bandidos. Tomarão aquilo como absurdo. Quedas
do juízo. Mas há alívio por trás
da linhas vincadas de consternação. Está
ali localizado. Sabem-no agora. O que não fora algum
tempo. Tempo desespero. O medo do pior, que não se
diziam, por saberem quietos. Tempo de procura-se vivo ou morto.
E
a solitária roendo-lhe a resistência. A noite
única. Via somente os seus sonhos. O corpo entorpecido.
Uma dor única, insituada. Era um todo dor. Em que ficara
não havia os desse mundo. Febre terçã
certamente. Tremedeira sem paradeiro. Frio. Voava no inabitável.
Sempre lhe tornava a teimosia de arrancar do céu para
si a estrela a vésper das suas outras noites e manhãs.
O sol como se uma moeda amarela encandecida era sua aura.
Um cavalo de léguas tiranas a galope, tanto que suava.
Sede insana. E a água pura salobra. Vinha em golfadas
do mar à boca. Vomitava o que não havia. Estômago
em contratura feroz.
Desaprendera
locomover-se. Não ia. Ficara paralisado. Era o que
dizia aos criminosos que lhe intimavam a se levantar e ir.
A claridade metia-lhe espadas pelos olhos.
Dormiu
sem noção. Quando acordou, se pegou assenhoreado
de si. Se reconheceu. Resenhou a vida. Estava num velho colchão
de mola. A sede. A dor. Debilidade malsã. A pouca claridade
ainda feria. Um quase cadáver ficara. Na primeira vez
a mãe chorou como se o assim o tivesse. Mas a magrém,
descobriu, tornou-se o seu seguro. Os bandidos temiam aquilo.
Ofereciam simpatias.
Entanto,
determinara: maçã e biscoito de polvilho. Quando
fosse embora, deixaria ali o ódio. Enquanto não,
regava-o a cada dia de martírio que se lhe sucedia.