Hoje publico um poema de Antonio Cícero. Poeta contemporâneo.
Muitos poemas seus têm sido musicados por expoentes
da música popular brasileira. Caetano, por exemplo.
Maria Bethania tornou música os poemas "Onze e
meia" e "Logrador". O que publico denomina-se
"Guardar". Antonio Cícero recebeu o prêmio
de poesia Nestlê como poeta estreante, numa das últimas
Bienais Nestlê de L:iteratura. A seu respeito, compondo
a "orelha" do livro "Guardar"que contém
os poemas supracitados, disse o professor, crítico
e escritor Silvino Santiago: "O poeta Antonio Cícero
é, ao mesmo tempo, herdeiro das superfícies
e das profundezas".
Guardar
Guardar uma coisa não é escondê-la ou
trancá-la.
Em cofre não se guarda coisa alguma.
Em cofre perde-se a coisa à vista.
Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la,
mirá-la por
admirá-la, isto é, iluminá-la ou ser
por ela iluminado.
Guardar uma coisa é vigiá-la, isto é,
fazer vigília por
ela, isto é, velar por ela, isto é, estar acordado
por ela,
isto é, estar por ela ou ser por ela. Por isso melhor
se guarda o vôo de um pássaro.
Do que um pássaro sem vôos.
Por isso se escreve, por isso se diz, por isso se publica,
por isso se declara e declama um poema:
Para guardá-lo:
Para que ele, por sua vez, guarde o que guarda:
Guarde o que quer que guarda um poema:
Por isso o lance do poema:
Por guardar-se o que se quer guardar.