Pétalas murchas daquela flor amarela teimando em não
se despencarem. Embaixo, esparzidas, recobrindo de amarelo
ainda a tez cóbrea da terra inúmeras companheiras
suas. Impossível prolongar ali a permanência.
A natureza é impassível. Irreversível.
Há a hora do brilho. E a da nódoa. A hora de
estar no alto. E a de desfazer-se no barro que está
abaixo.
Bela,
florente, no alto, resistindo a flor amarela. Já há
muito outras jaziam ao pé da árvore altiva.
Pisoteadas. Curtidas pela sombra fria. Provimento de formigas.
Nem o sol, nem a brisa. E a chuva agora integra a corte de
seus inimigos. Não eram muitas. Algumas vermelhas.
Outras azuis. Algumas outras verdes. Umas poucas brancas.
E
o tempo que lhes garantiu o viço, a brisa, o orvalho,
a contemplação da aurora, a quentura excitante
do sol, as carícias inebriantes das abelhas, da mamangaba,
a orgástica intrusão do beija-flor, também
ele ávido do seu mel, o flerte noturno com as estrelas,
a quase irresistível sedução desta formosura
de Lua que, numa ousadia bem masculina, vive mudando de forma
para maior ser a força do seu encanto, esse mesmo tempo
impiedosamente torna-as mais e mais lama, terra, pó
--- nada. E, para desespero maior, em cima, ereta, beijada,
roçada, cobiçada, resplendendo vida, a flor
amarela. Flor como elas! Que segredo a natureza reservara-lhe?
O
tempo, se misterioso, é infalível operário
dos seus desígnios. E trouxe a hora daquela flor amarela.
Com dor, talvez, por mais querê-la. Ou não, que
a não quisesse nem mais nem menos que as outras. Apenas
agia conforme havia de proceder com cada coisa.
À
flor amarela fora consignado um tempo maior de vida. Ela sabia
seduzir a Lua, excitar as estrelas, alucinar o Sol, devanear
as abelhas, delirar o beija-flor. As outras sabiam somente
flor ser.
E
a flor amarela passou a se ver como uma decrépita.
O Sol lhe parecia uma gigantesca vela. As estrelas, múltiplos
sírios. A Lua, uma mortalha opaco-nívea. Não
fora como as outras. Ia pétala por pétala. Como
se não compadecessem dela. Mais e mais se recolhia,
reduzindo-se à sua corola, a seu estame já bastante
arqueado. Ressequida expressão de espanto, ou de terror,
fixando o chão. Inconformada, talvez, com a sua condição
última, ser essencialmente um estágio do ciclo
reprodutivo de sua espécie: flor, anúncio de
frutos.