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Data 20/mar/1999

Pétalas murchas daquela flor amarela teimando em não se despencarem. Embaixo, esparzidas, recobrindo de amarelo ainda a tez cóbrea da terra inúmeras companheiras suas. Impossível prolongar ali a permanência. A natureza é impassível. Irreversível. Há a hora do brilho. E a da nódoa. A hora de estar no alto. E a de desfazer-se no barro que está abaixo.

Bela, florente, no alto, resistindo a flor amarela. Já há muito outras jaziam ao pé da árvore altiva. Pisoteadas. Curtidas pela sombra fria. Provimento de formigas. Nem o sol, nem a brisa. E a chuva agora integra a corte de seus inimigos. Não eram muitas. Algumas vermelhas. Outras azuis. Algumas outras verdes. Umas poucas brancas.

E o tempo que lhes garantiu o viço, a brisa, o orvalho, a contemplação da aurora, a quentura excitante do sol, as carícias inebriantes das abelhas, da mamangaba, a orgástica intrusão do beija-flor, também ele ávido do seu mel, o flerte noturno com as estrelas, a quase irresistível sedução desta formosura de Lua que, numa ousadia bem masculina, vive mudando de forma para maior ser a força do seu encanto, esse mesmo tempo impiedosamente torna-as mais e mais lama, terra, pó --- nada. E, para desespero maior, em cima, ereta, beijada, roçada, cobiçada, resplendendo vida, a flor amarela. Flor como elas! Que segredo a natureza reservara-lhe?

O tempo, se misterioso, é infalível operário dos seus desígnios. E trouxe a hora daquela flor amarela. Com dor, talvez, por mais querê-la. Ou não, que a não quisesse nem mais nem menos que as outras. Apenas agia conforme havia de proceder com cada coisa.

À flor amarela fora consignado um tempo maior de vida. Ela sabia seduzir a Lua, excitar as estrelas, alucinar o Sol, devanear as abelhas, delirar o beija-flor. As outras sabiam somente flor ser.

E a flor amarela passou a se ver como uma decrépita. O Sol lhe parecia uma gigantesca vela. As estrelas, múltiplos sírios. A Lua, uma mortalha opaco-nívea. Não fora como as outras. Ia pétala por pétala. Como se não compadecessem dela. Mais e mais se recolhia, reduzindo-se à sua corola, a seu estame já bastante arqueado. Ressequida expressão de espanto, ou de terror, fixando o chão. Inconformada, talvez, com a sua condição última, ser essencialmente um estágio do ciclo reprodutivo de sua espécie: flor, anúncio de frutos.



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