Machado de Assis, esse gênio maior da
literatura brasileira, nunca saiu da sua Rio de Janeiro. Todavia,
viajou pela alma e memória humana como poucos.
Viajar, todos viajam nesse mundo. Uns mais.
Outros menos. E viagem não é coisa apenas de
homem. Também os bichos fazem suas viagens. Os bichos,
por certo, viajam pela imperiosa necessidade de sustentar
a vida. Então, aos bichos, viajar é trabalhar.
Já o homem achou na viagem uma forma
provisória e benfazeja de ausentar-se do trabalho.
Viajar. Ir aonde a ele tudo é construção
de vadiagem. Viajar para ir à praia. Viajar para ir
ao pantanal. Viajar para ir às cidades históricas.
Viajar para ir a museus, a exposições de arte,
às bienais. Viajar para ir pescar. Viajar para visitar
parentes. Turnês pela Europa. Viajar para ir aos Estados
Unidos: ir à Disney, a Miami.
É certo, há a viagem que se
constitui em trabalho, profissão: viajante. Sai a propagar
e a vender produtos de toda a ordem.
Viagem é entretenimento. Entanto, há
ninguém que negue: é conhecimento, aprendizagem.
Alarga o horizonte do homem. Dizem mesmo que homem viajado
mais sabe.
Mas há a outra viagem. A do cérebro.
Memória e invenção viajam e fazem viajar
tanto quanto ou mais. Ouvir as muitas músicas, os muitos
causos, as muitas histórias. Ler os muitos romances,
os muitos contos, as novelas -- imiscuir-se como um demiurgo
por aqueles mundos... E assistir às peças teatrais,
aos filmes, às novelas, aos sortilégios que
nos estampa a internet.
Quando não, os arquivos da memória
vão nos dando de novo o tempo dormido. Viagem que muita
vez parece momentânea de tão viva, tão
intensa. Sim, que as recordações, como os sonhos
parecem imprescindíveis à vida humana. Os sonhos
e as recordações restabelecem o homem, sujeito
feito de sonhos e recordações.
Afinal, viver é mais que muito perigoso.
Viver é viagens. Viagens que tecem uma vida que tem
começo e fim.