O texto a seguir pertence a Murilo Mendes, um dos consagrados
poetas brasileiros. Seu aparecimento no cenário da
literatura ocorreu por volta de 1930, quando vivêramos
a denominada segunda fase do Modernismo. Ali e dali em diante,
figurou ao lado dos que se tornariam nossos maiores poetas:
Drummond, Jorge de Lima, Vinícius, Cecília Meireles
e, logo depois, João Cabral. Murilo Mendes nasceu em
Juiz de Fora, Minas, viveu praticamente no Rio de Janeiro
e grande parte de sua vida em Roma, onde principalmente lecionou
Literatura Brasileira. Mas Murilo escreveu em prosa de modo
também notável, conquanto aí pouco conhecido.
Seus textos em prosa, crônicas, para dizer de forma
genérica, contêm, nem podia ser muito diferente,
muitos dos traços estilísticos e ideológicos
dos seus poemas. São concisos, densos e bastante originais.
É do livro Poliedro que retiro esse texto:
Tremo quando examino o serrote.
Acho angustiante a música dentada do serrote rangendo,
pais de Antonin Artaud, cuja mãe é uma das Górgones.
Para libertar-me do serrote compus um drama mínimo
sobre.
DRAMATIS PERSONAE:
O SERROTE;
EU PRÓPRIO, DE BINÓCULO E LUVAS PRETAS.
CENÁRIO: UM QUALQUER.
TEMPO DA AÇÃO: 1910-1915.
ESPAÇO DA AÇÃO: JUIZ DE FORA --- RIO
--- ROMA
Aproximo-me bastante do serrote, calço
as luvas, entrego-lhe o texto menor do mundo:
AI!
*
Fora o serrote. Ainda assim prefiro-o à bomba atômica.
Se bem que terrível não ameaça nem troveja.
Além disto não há serrotes "limpos"ou
"sujos", americanos, russos ou chineses. Todos são
internacionais. (Acabarei elogiando o serrote.)
Serrote, caixinha de música dos nazistas.