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E Serrote
Data 26/fev/1999

O texto a seguir pertence a Murilo Mendes, um dos consagrados poetas brasileiros. Seu aparecimento no cenário da literatura ocorreu por volta de 1930, quando vivêramos a denominada segunda fase do Modernismo. Ali e dali em diante, figurou ao lado dos que se tornariam nossos maiores poetas: Drummond, Jorge de Lima, Vinícius, Cecília Meireles e, logo depois, João Cabral. Murilo Mendes nasceu em Juiz de Fora, Minas, viveu praticamente no Rio de Janeiro e grande parte de sua vida em Roma, onde principalmente lecionou Literatura Brasileira. Mas Murilo escreveu em prosa de modo também notável, conquanto aí pouco conhecido. Seus textos em prosa, crônicas, para dizer de forma genérica, contêm, nem podia ser muito diferente, muitos dos traços estilísticos e ideológicos dos seus poemas. São concisos, densos e bastante originais. É do livro Poliedro que retiro esse texto:

Tremo quando examino o serrote.
Acho angustiante a música dentada do serrote rangendo, pais de Antonin Artaud, cuja mãe é uma das Górgones.
Para libertar-me do serrote compus um drama mínimo sobre.

DRAMATIS PERSONAE:
O SERROTE;
EU PRÓPRIO, DE BINÓCULO E LUVAS PRETAS.
CENÁRIO: UM QUALQUER.
TEMPO DA AÇÃO: 1910-1915.
ESPAÇO DA AÇÃO: JUIZ DE FORA --- RIO --- ROMA

Aproximo-me bastante do serrote, calço as luvas, entrego-lhe o texto menor do mundo:

AI!
*
Fora o serrote. Ainda assim prefiro-o à bomba atômica. Se bem que terrível não ameaça nem troveja. Além disto não há serrotes "limpos"ou "sujos", americanos, russos ou chineses. Todos são internacionais. (Acabarei elogiando o serrote.)
Serrote, caixinha de música dos nazistas.



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