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Águas da Serra
Data 12/fev/1999

João Guimarães Rosa dispensa apresentação, pois trata-se de um do gênios da literatura em língua portuguesa e um dos maiores escritores do Brasil.Poder-se-ia dizer que há uma linguagem literária antes e outra posterior a Guimarães Rosa. Ante sua obra, poesia, prosa, romance, conto, novela, Barroco, Romantismo, Realismo, Classicismo, etc. são conceitos, gêneros, estilos que em si mesmos não têm validade para a compreensão de suas obras monumentais: Grande Sertão: Veredas, Sagarana, Primeiras Estórias, Manuelzão e Miguilim, No Urubuquaquá do Pinhém, Noites do Sertão. Mas, curiosamente, Guimarães foi inicialmente notado no meio intelectual por uma obra de poemas, forma literária; que ele nunca mais produziu. Mais, esse Magma foi mesmo "renegado; por ele. É, pois, de Magma, que dou ao público leitor dessa coluna um poema hoje.

Águas da Serra

Águas que correm,
claras,
do escuro dos morros,
cantando nas pedras a canção do mais-adiante,
vivendo no lodo a verdade do sempre-descendo...
Águas soltas entre os dedos da montanha,
noite e dia,
na fluência eterna do ímpeto da vida...
Qual terá sido a hora da vossa fuga,
quando as formas e as vidas se desprenderam
das mãos de Deus,
talvez enquanto o próprio Deus dormia?...
E então, do semi-sono dos paraísos perfeitos,
os diques se romperam,
forças livres rolaram,
e veio a ânsia que redobra ao se fartar,
e os pensamentos que ninguém pode deter,
e novos amores em busca de caminhos,
e as águas e as lágrimas sempre correndo,
e Deus talvez ainda dormindo,
e a luz a avançar, sempre mais longe,
nos milênios de treva do sem-fim...



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