João Guimarães Rosa dispensa apresentação,
pois trata-se de um do gênios da literatura em língua
portuguesa e um dos maiores escritores do Brasil.Poder-se-ia
dizer que há uma linguagem literária antes e
outra posterior a Guimarães Rosa. Ante sua obra, poesia,
prosa, romance, conto, novela, Barroco, Romantismo, Realismo,
Classicismo, etc. são conceitos, gêneros, estilos
que em si mesmos não têm validade para a compreensão
de suas obras monumentais: Grande Sertão: Veredas,
Sagarana, Primeiras Estórias, Manuelzão e Miguilim,
No Urubuquaquá do Pinhém, Noites do Sertão.
Mas, curiosamente, Guimarães foi inicialmente notado
no meio intelectual por uma obra de poemas, forma literária;
que ele nunca mais produziu. Mais, esse Magma foi mesmo "renegado;
por ele. É, pois, de Magma, que dou ao público
leitor dessa coluna um poema hoje.
Águas da Serra
Águas que correm,
claras,
do escuro dos morros,
cantando nas pedras a canção do mais-adiante,
vivendo no lodo a verdade do sempre-descendo...
Águas soltas entre os dedos da montanha,
noite e dia,
na fluência eterna do ímpeto da vida...
Qual terá sido a hora da vossa fuga,
quando as formas e as vidas se desprenderam
das mãos de Deus,
talvez enquanto o próprio Deus dormia?...
E então, do semi-sono dos paraísos perfeitos,
os diques se romperam,
forças livres rolaram,
e veio a ânsia que redobra ao se fartar,
e os pensamentos que ninguém pode deter,
e novos amores em busca de caminhos,
e as águas e as lágrimas sempre correndo,
e Deus talvez ainda dormindo,
e a luz a avançar, sempre mais longe,
nos milênios de treva do sem-fim...