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Diabo Loiro
Data 05/fev/1999

A bola era o seu feitiço. Empenhou sua meninice enrabichado por ela. A escola. A bola, a bola, a bola. Tudo por tê-la sempre consigo. Ou por estar com ela. Todo o tempo de que dispunha para a bola. Tivera algumas. Mais que o dono da bola, se incumbia da escolha de seu time. Fosse em quaisquer peladas. Na da rua, ou na do campinho. Atacante completo: driblador quase sempre acusado de abusivo. Chutava bem com os dois pés. Toques rápidos e surpreendentes.

Essa finês não lhe adviera do puro talento. Em casa, dedicava-se com gosto e cansaço a tempos de muito treino com a sua bola. A tal ponto que à boba perna esquerda que era, destroncara-lhe o dedão treinando chutes, e chutes sem fim. Até tê-la por inteiro domada. Sua escolinha foram as peladas, o futebol de rua, dos campinhos. Escola, essa sim, de tempo integral. O futebol era o seu presente. O futebol seria o seu futuro.

Houve preços por isso. Castigos vários. Surras inclusive. Todavia, a bola se fizera o seu vício. E seus sonhos. Que menino desses não se vê amanhã integrando um grande time? A torcida ovacionado, chamando-lhe o nome. O máxime: a seleção. Arrebentar na Copa do Mundo. Ganhar os jornais, os canais de tv. Ficar rico. Fazer seu pé-de-meia. Isso foi Pelé, Garrincha. Foi Romário. É Ronaldinho. Mas foram também os muitos que não passaram de um Zé Qualquer.

Ele já era o Diabo Loiro para aquela cidade pacata em que o futebol era diversão magna. Um magricela que se tornava uma grande promessa: forjava-se ali o grande craque, sua futura orgulhosa projeção. Como Garrincha o fora para uma insignificante, então, Pau Grande.

Nas partidas domingueiras muita gente se juntava. Todos de olho nas jogadas do Diabo Loiro. Mil técnicos corrigindo-lhe um sutil defeito.

Veio a puberdade. Diminuiram-se as ruas. Veio o ginásio -- estudos mais fundos. As tantas matérias exigindo uma certa disciplina. Crescia ouvindo que com quem muito estuda, ficam as grandes profissões. Pintou uma paixão concorrente à bola. Já trocavam beijos, juras, desejos. Período em que ficou divido. Incompatíveis. Sua menina não dava a mínima à bola. Nem mesmo durante a Copa.

Aquela menina, outras meninas, o gosto pelo estudo por fim desencaminharam o destino do franzino menino cujo apelido fora Diabo Loiro O seu futebol exímio ficou confinado ao amadorismo. Muitos acharam aquilo uma perda e desperdício. Ele, no entanto, não se deu por isso. Foi ser muito bem profissional noutro ofício.



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