A bola era o seu feitiço. Empenhou sua meninice enrabichado
por ela. A escola. A bola, a bola, a bola. Tudo por tê-la
sempre consigo. Ou por estar com ela. Todo o tempo de que
dispunha para a bola. Tivera algumas. Mais que o dono da bola,
se incumbia da escolha de seu time. Fosse em quaisquer peladas.
Na da rua, ou na do campinho. Atacante completo: driblador
quase sempre acusado de abusivo. Chutava bem com os dois pés.
Toques rápidos e surpreendentes.
Essa finês não lhe adviera do
puro talento. Em casa, dedicava-se com gosto e cansaço
a tempos de muito treino com a sua bola. A tal ponto que à
boba perna esquerda que era, destroncara-lhe o dedão
treinando chutes, e chutes sem fim. Até tê-la
por inteiro domada. Sua escolinha foram as peladas, o futebol
de rua, dos campinhos. Escola, essa sim, de tempo integral.
O futebol era o seu presente. O futebol seria o seu futuro.
Houve preços por isso. Castigos vários.
Surras inclusive. Todavia, a bola se fizera o seu vício.
E seus sonhos. Que menino desses não se vê amanhã
integrando um grande time? A torcida ovacionado, chamando-lhe
o nome. O máxime: a seleção. Arrebentar
na Copa do Mundo. Ganhar os jornais, os canais de tv. Ficar
rico. Fazer seu pé-de-meia. Isso foi Pelé, Garrincha.
Foi Romário. É Ronaldinho. Mas foram também
os muitos que não passaram de um Zé Qualquer.
Ele já era o Diabo Loiro para aquela
cidade pacata em que o futebol era diversão magna.
Um magricela que se tornava uma grande promessa: forjava-se
ali o grande craque, sua futura orgulhosa projeção.
Como Garrincha o fora para uma insignificante, então,
Pau Grande.
Nas partidas domingueiras muita gente se juntava.
Todos de olho nas jogadas do Diabo Loiro. Mil técnicos
corrigindo-lhe um sutil defeito.
Veio a puberdade. Diminuiram-se as ruas. Veio
o ginásio -- estudos mais fundos. As tantas matérias
exigindo uma certa disciplina. Crescia ouvindo que com quem
muito estuda, ficam as grandes profissões. Pintou uma
paixão concorrente à bola. Já trocavam
beijos, juras, desejos. Período em que ficou divido.
Incompatíveis. Sua menina não dava a mínima
à bola. Nem mesmo durante a Copa.
Aquela menina, outras meninas, o gosto pelo
estudo por fim desencaminharam o destino do franzino menino
cujo apelido fora Diabo Loiro O seu futebol exímio
ficou confinado ao amadorismo. Muitos acharam aquilo uma perda
e desperdício. Ele, no entanto, não se deu por
isso. Foi ser muito bem profissional noutro ofício.