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Muitas Vozes
Data 22/jan/1999

Publico, hoje, um poema inédito de um dos maiores poetas da literatura brasileira e de língua portuguesa. Trata-se de Ferreira Gullar. Gullar tem seu nome já vincado na história da literatura brasileira em função da grandeza de sua poesia e também de sua intensa e polêmica atuação nos acontecimentos político-culturais brasileiros.É autor de várias obras poéticas, dentre as quais destaco Dentro da Noite Veloz e sua obra-prima Poema Sujo. Este poema consta do Caderno de Cultura Brasileira, número 6, de setembro de 1998, o qual é editado semestralmente pelo Instituto Moreira Salles.

Muitas Vozes

Meu poema
é um tumulto:
a fala
que nele fala
outras vozes
arrasta em alarido.

(estamos todos nós
cheios de vozes
que o mais das vezes
mal cabem em nossa voz:

se dizes pera,
acende-se um clarão
um rastilho
de tardes e açúcares
ou
se azul disseres,
pode ser que se agite
o Egeu
em tuas glândulas)

A água que ouviste
num soneto de Rilke
os ínfimos
rumores no capim
o sabor
do hortelã
(essa alegria)
a boca fria
da moça
o maruim
na poça
a hemorragia
da manhã

tudo isso em ti
se deposita
e cala.

Até que de repente
um susto
ou uma ventania
(que dispara o poema)
chama
esses fósseis à fala.

Meu poema
é um tumulto, um alarido:
basta apurar o ouvido.



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