Publico, hoje, um poema inédito de um dos maiores poetas
da literatura brasileira e de língua portuguesa. Trata-se
de Ferreira Gullar. Gullar tem seu nome já vincado
na história da literatura brasileira em função
da grandeza de sua poesia e também de sua intensa e
polêmica atuação nos acontecimentos político-culturais
brasileiros.É autor de várias obras poéticas,
dentre as quais destaco Dentro da Noite Veloz e sua obra-prima
Poema Sujo. Este poema consta do Caderno de Cultura Brasileira,
número 6, de setembro de 1998, o qual é editado
semestralmente pelo Instituto Moreira Salles.
Muitas
Vozes
Meu
poema
é um tumulto:
a fala
que nele fala
outras vozes
arrasta em alarido.
(estamos
todos nós
cheios de vozes
que o mais das vezes
mal cabem em nossa voz:
se
dizes pera,
acende-se um clarão
um rastilho
de tardes e açúcares
ou
se azul disseres,
pode ser que se agite
o Egeu
em tuas glândulas)
A
água que ouviste
num soneto de Rilke
os ínfimos
rumores no capim
o sabor
do hortelã
(essa alegria)
a boca fria
da moça
o maruim
na poça
a hemorragia
da manhã
tudo isso em ti
se deposita
e cala.
Até que de repente
um susto
ou uma ventania
(que dispara o poema)
chama
esses fósseis à fala.
Meu
poema
é um tumulto, um alarido:
basta apurar o ouvido.