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A Cegueira do Poéta
Data 10/jan/1999

Se pudesse assim afirmar, dir-se-ia um poeta por vocação. A poesia era a sua paixão. Vivera, e vivia, sempre às voltas com ela. Lendo, escrevendo, lendo. Mas de poesia ninguém se mantém, nem se mantivera. Nem Drummond, nem Cabral. Quanto mais ele. Reles poeta de poesias esporádicas. Mil coisas tomavam conta da sua cabeça, na qual, às quais ainda faltava espaço. Logo, ao poema, se quisesse, pedaços da madrugada. E se poesia se faz com palavras, pensar, pois, era pouco. E articular palavras, e imagens, e ritmo, requer muito, mas muito mais que um isto..., pronto! Eis o poema!

Assim ia. Cometendo seus versos. Poeta despretensioso, sendo sua meta o poema. Dessem-lhe ou não o mérito. E quase não lho davam. Conhecido pela sua cercania, dava-se a ler num ou noutro periódico. Lia, afora os poetas maiores já, todos, grandes, há tempos em estado de obra. Não menosprezava os tidos menores. Mas lia também algumas promessas e muitas bobagens que lhe passavam ou remetiam conhecidos e desconhecidos.

E não por isso, e apesar disso, impávida, a poesia segue sendo o seu próprio destino. Infindo. Vindo, vem desde não sei. E vai, porque sempre fica. Prescinde de chegada precisa. Tão antiga quanto Deus. Para muitos, o primeiro e insuperável poeta. E tão nova quanto o daqui a pouco, que não se sabe ainda o que é.

Certa feita, ao perambular o olhar pelos jornais, colheu anúncio de que havia entrevista com o Poeta maior, que já começava a teimar com a vida. Ávido, fora ao caderno da matéria. Com pouco, ficou pasmo. O poeta ficara cego por completo. Cego! O Poeta! Pôs-se por instantes a pensar no que poderia vir a ser. A vida parecia estar sendo levada de vencida. Mas logo afastou o pior.

Mal se continha no término da leitura. Impunha-se-lhe indomavelmente, impulsiva e impaciente, uma idéia decidida. E foi à carta. Muito a reescreveu e a emendou. Que o Poeta se conformasse com o destino. Também Homero, e Borges. Beethoven com a impiedosa surdez. Aleijadinho indo devorado vivo pela lepra. Aos grandes, tornam-nos maiores justamente as barreiras que se lhes opõem provocativas.

A resposta veio quando ainda não se a esperava. Rápida. Típica de quem quando tem pressa. Bobagem. Não tem volta. Eu fui só olhos. A propósito, tenho lido (acabo de relê-lo) teu livro. Posto que só agora to declaro, são poemas muito bons. Meus parecidos. Então: doa teus olhos essa poesia para que ela permaneça. Assim viva.

Ficou estupefato. Incrédulo. O olhar turvo perdido no vazio todo que o circundava.



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