Postada ficara defronte o portão de entrada. Livros
e cadernos comprimidos aos seios por um fixo abraço.
Cabeça meio pendida, o queixo levemente apoiado a eles.
Posicionava-se meio voltada para a escola, meio voltada para
a rua. Assim, decerto, bem podia observar os seus dois centros
de interesse.
Era
ali destemida. Ficara daquele modo quase imóvel. Olhos
absorvendo o que ia pela escola. Olhos absorvendo o que ia
pela rua. Estava exposta. Não a perturbava a nuvem
de poeira erguida a cada veículo. Nem a grande possibilidade
de o inspetor de aluno de repente surgir.
Avisaram-no
dela. Saiu. Pusera-se a ir em sentido contrário ao
que demandaria até ela. Apreciou algum tempo um canteiro
de multiflores. Eram de cativar a alma. Sinceramente contemplava-as,
contudo a soslaio mirava a moça ao portão. Desde
então, ela passara a entremostrar inquietação.
Mas não se demovera. Ele caminhava, agora, discretamente
indo para aquela direção. Dois passos, uma pausa
para apanhar uma erva-mato. Arrancava-a expondo suas malraízes
ao sol sobre o acimentado. Mais dois passos a conferir o botão
de uma rosa excessivamente pendido. Quando ela mal percebera,
tinha diante de si uma fisionomia severo-branda fixando-a.
Respondeu-lhe
que não tivera assistido a nenhuma aula. E ali estivera
plantada todo aquele tempo sem ir nem vir?! Replicou que não
conseguia entrar à sala de aula às vezes. Quase
sempre suportava-a Havia dias, porém, como aquele,
que a idéia de se ver na sala de aula provocava-lhe
pânico. Então, sequer ultrapassava o portão.
Ficava por ali. Quando todos haviam entrado, ia para um lugar
onde pudesse isolar-se. Lá ficava com a cabeça
no vácuo e o olhar perdido. Hoje ficara ali sem poder
se mover. Não entendia por quê.
Concordou
em ir até a sala dele. Quis saber dela o que aspirava
para o futuro. Nada. Nenhuma ambição, nenhum
sonho? Não. Esperava poder casar-se e cuidar de sua
casa. Mais nada. Justo e bonito era que quisesse ter um lar,
criar os filhos, mas uma mulher, como um homem, precisa querer
mais. O sonho é que nos move. Veja, tanto assim é
que mesmo quando dormimos, sonhamos. Impossível ser
sem sonhar. Não sonhar é anular-se. Não
ambicionar é puro animalismo! Por que não sonhar
conquistas, ser modelo, atriz, médica, advogada, parlamentar,
diplomata, professora. Sei lá, qualquer coisas assim,
realizável. Sonha, ambiciona e vai à conquista,
menina! Tens uma beleza plástica em potencial. Olhos
vivos. Um todo sedutor de mulher impositivo. Sonha, ousa!
Todavia, o oco da cabeça será um grande empecilho.
Há que preenchê-lo com o saber, com os conhecimentos,
com uma linguagem ágil, fluente. E a escola pode muito
contribuir para isso.
Ela
o ouvia impassível. Mas tinha-lhe os olhos estatelados
fixos e naturalmente sorrira algumas vezes. Ele se deu conta
de que falara demais. Desculpou-se. Pediu-lhe que dissesse
um pouco de tudo que ficara pensando. Respondera-lhe que nada
tinha a dizer. Pediu-lhe, por sua vez, que a permitisse ir
para a sala de aula. Estava decidida a estudar. Foi-se.
Ficou
a pensar no que fizera. Sentia-se feliz e temeroso. Um misto
de ilusionista e moralista barato. Mas a intuição
e a esperança sopravam-lhe que aquilo fora mesmo mais
positivo.