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Conquista
Data 02/jan/1999

Postada ficara defronte o portão de entrada. Livros e cadernos comprimidos aos seios por um fixo abraço. Cabeça meio pendida, o queixo levemente apoiado a eles. Posicionava-se meio voltada para a escola, meio voltada para a rua. Assim, decerto, bem podia observar os seus dois centros de interesse.

Era ali destemida. Ficara daquele modo quase imóvel. Olhos absorvendo o que ia pela escola. Olhos absorvendo o que ia pela rua. Estava exposta. Não a perturbava a nuvem de poeira erguida a cada veículo. Nem a grande possibilidade de o inspetor de aluno de repente surgir.

Avisaram-no dela. Saiu. Pusera-se a ir em sentido contrário ao que demandaria até ela. Apreciou algum tempo um canteiro de multiflores. Eram de cativar a alma. Sinceramente contemplava-as, contudo a soslaio mirava a moça ao portão. Desde então, ela passara a entremostrar inquietação. Mas não se demovera. Ele caminhava, agora, discretamente indo para aquela direção. Dois passos, uma pausa para apanhar uma erva-mato. Arrancava-a expondo suas malraízes ao sol sobre o acimentado. Mais dois passos a conferir o botão de uma rosa excessivamente pendido. Quando ela mal percebera, tinha diante de si uma fisionomia severo-branda fixando-a.

Respondeu-lhe que não tivera assistido a nenhuma aula. E ali estivera plantada todo aquele tempo sem ir nem vir?! Replicou que não conseguia entrar à sala de aula às vezes. Quase sempre suportava-a Havia dias, porém, como aquele, que a idéia de se ver na sala de aula provocava-lhe pânico. Então, sequer ultrapassava o portão. Ficava por ali. Quando todos haviam entrado, ia para um lugar onde pudesse isolar-se. Lá ficava com a cabeça no vácuo e o olhar perdido. Hoje ficara ali sem poder se mover. Não entendia por quê.

Concordou em ir até a sala dele. Quis saber dela o que aspirava para o futuro. Nada. Nenhuma ambição, nenhum sonho? Não. Esperava poder casar-se e cuidar de sua casa. Mais nada. Justo e bonito era que quisesse ter um lar, criar os filhos, mas uma mulher, como um homem, precisa querer mais. O sonho é que nos move. Veja, tanto assim é que mesmo quando dormimos, sonhamos. Impossível ser sem sonhar. Não sonhar é anular-se. Não ambicionar é puro animalismo! Por que não sonhar conquistas, ser modelo, atriz, médica, advogada, parlamentar, diplomata, professora. Sei lá, qualquer coisas assim, realizável. Sonha, ambiciona e vai à conquista, menina! Tens uma beleza plástica em potencial. Olhos vivos. Um todo sedutor de mulher impositivo. Sonha, ousa! Todavia, o oco da cabeça será um grande empecilho. Há que preenchê-lo com o saber, com os conhecimentos, com uma linguagem ágil, fluente. E a escola pode muito contribuir para isso.

Ela o ouvia impassível. Mas tinha-lhe os olhos estatelados fixos e naturalmente sorrira algumas vezes. Ele se deu conta de que falara demais. Desculpou-se. Pediu-lhe que dissesse um pouco de tudo que ficara pensando. Respondera-lhe que nada tinha a dizer. Pediu-lhe, por sua vez, que a permitisse ir para a sala de aula. Estava decidida a estudar. Foi-se.

Ficou a pensar no que fizera. Sentia-se feliz e temeroso. Um misto de ilusionista e moralista barato. Mas a intuição e a esperança sopravam-lhe que aquilo fora mesmo mais positivo.



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