Mesmo no interior, as casas com quintais se rarefazem. Quando
os há, cimentam-nos. A civilização da
cibernética parece repugnar a terra. Não obstante
aconteça no planeta Terra.
A
terra suja, a terra encarde. O cimento, puro concreto, conquanto
dela decorra, não a lembra. O barro de que somos feito
é repelido. Repugnamos aquilo que essencialmente somos.
Haja vista os cemitérios. Até na morte à
terra bruta, mater matéria, estranhamente nos negamos.
Pois os quintais se rarefazem. Entanto, agonicamente, alguns
resistem por aí. E se fazem jardins, minipomares. Logo,
quintais assim se fazem também viveiros inevitáveis.
Ali moram, habitam insetos, pássaros, borboletas, abelhas,
sapos, (morcegos).
Mas há um réptil que não os deixa sempre,
uma espécie de lagarto. Seu hábitat mesmo são
os muros . Ao quintal desce movido por alguma necessidade
e logo torna ao muro. Fica como que paralítico.largo
espaço de tempo. Um meio corpo erguido e a cabeça
alçada argutamente perscrutando. Não costuma
andar agrupado. Mais longo o muro, muito mais lagarto. É
um animal, embora comum, que atrai a atenção.
Parece não condizer com os bichos de agora. Mais apropriado
para as eras dos dinossauros. Seus olhos triangulares, principalmente
quando espreitam, vêem pelos cantos. Pálpebras
derreadas. Olhos, como os de Capitu, oblíquos e dissimulados.
Olhos de ressaca.
Quando menino vivia me deparando com toda ordem de bichos
selvagens. Da família desse calango, impressionou-me
o teiú. Um lagarto-jacaré em pleno mato. A vez
que o vi, fiquei paralisado. O coração em alvoroço.
Enorme, foi andando calmamente, indiferente a mim , que, com
certeza, via a meia distância.
Mas desse lagarto de muro também tínhamos receio.
Eu e o outros meninos, meus amigos. Havia uma história
sobre ele que nos apavorava. Havia muitas outras histórias
que nos apavoravam, pois nelas críamos. A da mula-sem-cabeça
que soltava fogo pelas ventas. A de lobisomem. Sempre virava
lobisomem um velho introvertido, esquisito que todos conheciam.
Nós o conhecíamos por papa-vento. Diz que era
uma vez uma linda menina de olhos azuis, cabelos ruivos e
pernas bonitas, brincava de casinha com sua boneca bonita
de olhos verdes e louros cabelos no quintal de sua casa. No
ir e vir de seus afazeres de senhora doninha de casa, sentou-se
exausta no toco de uma mangueira que há tempos havia
sido cortada. Tão entretida ia com sua boneca que não
viu ali, paralítico, olhos-de-capitu, o papa-vento.
Saiu gritando para dentro de casa. O papa-vento tinha grudado
na sua nádega. E diz que dali só saía
quando desse trovoada. Foi uma tristura. A família,
todo o mundo rezando para que viesse chuva.
Estava eu mergulhado nesta lembrança, enquanto espiava
um deles no muro. O papa-vento também ciganamente me
espiava. E eis que num rasante surdiu um baita bem-te-vi abracando
com o bico o papa-vento. Assentou no fio de energia por instantes.
O lagarto se contorcia. Mas o bem-te-vi tinha o bico poderosamente
grudado nele. Voou para a goiabeira. Pacientemente, buscava
um jeito de comer aquele bicho muito grande para o seu bico.
Mas do lagarto não desgrudava. Acho que mesmo que chovesse.