O filho se fazia músico. Profissionalizava-se em sua
paixão. Coisa de cobiça e inveja. De quase nenhuma
coragem. Comum é tornar a paixão um robe. Haveria
uma audição. Momento afeito para uma participação
de destaque. Expectativa e nervos abertos em casa. Ambiente
afeito a clima de casamento. A mãe a mil. Leva, busca,
traz, recomenda, recrimina...
Tudo
em ritmo de vertigem. Tratava-se, pois, para a família,
de seu virtuose. E cria que, logo, o seria ao grande público.
Tudo sendo feito com esmero para dar suporte perfeito. O filho
sendo o espetáculo convertia-se no bem supremo da família.
Tensão e preparativos. A mãe dissera ao pai
da completa inabilidade do filho para embelezar os sapatos.
Execução musical assim a caráter faz-se
calçado de sapatos pretos. Os do filho estavam puídos.
O pai pegou-se em menino feito engraxate na sapataria de seu
pai. Aprendera como espalhar a graxa com a mão (engraxate
categorizado assim é que fazia). Escova boa tinha pêlo
macio. E roçava leve e solta o sapato. Já no
jeito de se pegar na escova, se conhecia o bom engraxate.
Engraxate bom nada lambuza de graxa. Não suja as mãos,
conquanto com elas engraxe; não mancha meia ou barra
de calça. E maneja o pano de lustração
com arte. O pano canta uma toada logo percebida quando em
boas mãos. Adiciona gotículas de água
com técnica para que a alva do brilho fique mais clara.
Era assim o garoto engraxate engraxando os sapatos dos clientes
da sapataria de seu pai.
Os sapatos do filho vão perdendo a puidez. Na primeira
demão a graxa escondeu o feio aparente. Readquiriu
o viço da negritude original. Segunda demão,
e o brilho perdido tornara. Sapato preso entre os joelhos
(outra técnica do grande engraxate), gotas dágua
esparzidas para impedir o embaçamento, e a cadência
da flanela, cujo ritmo vai produzindo o brilho.
Sapatos e olhos se miram:: fusão de brilhos. O menino
engraxate ali está todo tomado de sua arte. Tensão,
energia e emoção são os suores que lhe
molham. Uma coisa inigualável. Impagável: servir-se
de engraxate a seu próprio filho.