O diagnóstico: havia que extraí-lo. Seu estado
comprometia a estabilidade dos demais. O tempo de ir tenteando
se esgotara. Já se metamorfosera em inimigo. Como um
morto querido em decomposição. O odontólogo
enalteceu a excelente qualidade atual da prótese .Ele
ficou com o dente arrancado cravado na cabeça. Doía-lhe
tanto não tê-lo mais. A língua a todo
instante a acusar ausência dele.
Na
verdade, a dor não era de dente. Já havia se
acostumado com isso. Perdê-lo-ia um dia. Há alguns
anos a previsão se fizera. Tinha consciência
da fatalidade contra a qual tudo seria inútil. Todavia
o que quase o atordoava era uma idéia que não
lhe saía.
A perda do dente avivava uma fatalidade maior. Com ele se
ia a própria vida. Por que o organismo se dera ao trabalho
de expelir aquele dente? Não se tratava de um corpo
estranho. Dispunha de uma parte sua. E se um organismo se
automutila, suicida-se. Ainda que o faça para distender,
como pode, a vida. O todo já não é o
mesmo. O que se tem é um sopro de si. Um lembrança
mutilada do que fora. O tempo desdobra o homem em muitos outros.
Ao fim, nada somos do primeiro, tampouco do do meio. Na queda
de um dente, ou na sua extração obrigatória,
há um alarme da progressão degenerativa de uma
vida desde a sua origem.
Veio-lhe o tempo do grupo escolar. Cidadezinha pacata. Pacata
e pobre. Vivia das cerâmicas. Mas a escola tinha dentista.
Terror deles. Ao dentista, preferia-se qualquer castigo. O
motorzinho zinindo... E a aguda dor de pôr lágrimas
nos olhos. Quase todo o trabalho era sem anestésico.
Tinha menino que saía da cadeira aos berros.
Uma cárie de colo avançada condenara-lhe o molar
esquerdo. O dente era uma panela. Tudo ali se alojava. Foi
a sua primeira extração. Primeira e única
até então. Agora, década após,
sacrificava o outro. A homogeneidade, com ausência do
dois. Uma harmonização pela falta.
Dois dentes a menos na boca. Começara o período
de perdas? As rugas andavam visíveis pela face. As
flacidezes. Certos achaques. Estremeceu. Caminhava deliberadamente
para o nada. Não tinha até então atinado
com isso. Essa perda do outro molar trouxera-lhe o aviso.
Quantos já fora? Vários. Certo, todos demandaram
para ele. Mas aqueloutros, em si mesmos, não foram
ele. E a seu tempo desapareceram. O retrato da carteira de
identidade tirada quando ainda fazia o Tiro de Guerra é
testemunha intangível. Altivo atirador. Traços
másculos. Linhas indefectíveis. Claro, já
antes dele, por ele, outros dois, pelo menos, passaram, se
foram. Depois, ele, que ficara sendo apenas aquele retrato,
foi-se.
Há agora o que perdeu o segundo molar, que tem rugas
denunciadas; que deixa entrever celulites; que se pega em
fadigas. Esse é. Mas vai chegar o seu tempo de também
não mais ser.
E, como os outros não sabiam, não sabe se ainda
outro haverá, antes que se dê a completitude.