Íamos
descontraídos. Manhã quase a meio. Tacitamente
nos recompúnhamos de uma quase tragédia de véspera.
Resplandeciam ao sol um lago povoado de pássaros, gansos
e pescadores; a multiplicidade do verde circundante, os paralelepípedos
subindo e descendo ladeiras tornadas ruas. Ao longe o largo
horizonte composto de montanhas.
Sol, verde, água e ar. Era tudo o que se podia querer
depois de um grande susto. Dávamos ao corpo a livre
ação de ir andando. Andando para lugar qualquer.
Unicamente, se deixava o espírito em exercício.
E visto estava pelos olhares aguçados a busca de aprazimento.
As mãos dadas ("O presente é tão
grande, não nos afastemos./ Não nos afastemos
muito, vamos de mãos dadas.") esquecidas no mútuo
reconforto: vasos comunicantes telepáticos prescindidos
das palavras. Passeávamos A graça de assim sermos.
Mais ainda agora depois de ruim fato de que nos sabíamos
ilesos.
Íamos.
No meio do caminho, para a qual não saíramos,
irrompe uma bela igreja. Conquanto situada num lugar ermo,
não prescindia dos requintes próprios delas.
Aquela, ao contrário, avantajava-se às de muitas
cidades. Fora ali que veria depois aquela andorinha que fizera
ninho ao pé de São Francisco.
Andávamos. Da igreja para aonde mais fôssemos.
Apraziam-nos a brisa, o sol, a paisagem a que não estávamos
acostumados. As serras: enormes vales -- o vácuo e
o éter; as montanhas.
Agora, subíamos e descíamos as ladeiras feitas
estrada em paralelepípedo. Caminhávamos para
a cidadezinha próxima. Davam-na como muito bela. Andando,
abertos a tudo, com pouco lá estaríamos. Às
margens da estrada casas todas com compridas escadarias incrustadas
em meio a vegetações. Altos barrancos rochosos
recobertos de gramineas.
Curtíamos tudo e a nós mesmos. A alegria de
viver. Esquecidos da miséria e opressão que
sabíamos no País, no mundo. Provisoriamente
que fosse, desconectados daquilo. Respirávamos a vida.
Íamos reparando em seu dom pelo caminho.
Pouco antes de atingirmos a cidade, aquele lírio. O
grande ramo que lhe dava suporte, apenso às rochas
do barranco, curvava-se à estrada como se ofertasse
a flor. Ficamos extáticos O inóspito do lugar,
a multiplicidade de ervas não se nos pareciam compatíveis.
Ela impediu-me que lho apanhasse. Melhor ali estar para quem
mais pudesse partilhar daquele instante de delírio.