Publico
hoje um pouco da poesia de Manoel de Barros. Poeta que, não
obstante publique suas poesias desde 1937 (Poemas concebidos
sem pecado - título do primeiro, somente a partir da
publicação de O guardador de águas foi
melhor observado e sua grande e original poesia foi descoberta
pela crítica. O isólito, o estranhamento, a
reelaboração sentido das palavras, o fragmentário
imagético, a metalinguagem incessante, tudo muito impregnado
de telúrico pantaneiro-universal (é matogrossense
fazendeiro, residente em Campo Grande). Foi agraciado com
o prêmio de poesia da última Bienal Nestlê
pela sua obra Livro sobre nada, do qual transcrevo, para seu
deleite, a 3a. parte que leva o mesmo título do da
obra.
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É mais fácil fazer da tolice um regalo do que
da sensatez
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Tudo que não invento é falso.
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Há muitas maneiras sérias de não dizer
nada, mas só a poesia é verdadeira.
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Tem mais presença em mim o que me falta.
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Melhor jeito que achei para me conhecer foi fazendo o contrário.
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Sou muito preparado de conflitos.
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Não pode haver ausência de boca nas palavras:
nenhuma fique desamparada do ser que a revelou.
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O meu amanhecer vai ser de noite.
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Melhor que nomear é aludir. Verso não precisa
dar noção.
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O que sustenta a encantação de um verso (além
do ritmo) é o ilogismo.
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Meu avesso é mais visível do que um poste.
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Sábio é o que adivinha.
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Para ter mais certezas tenho que me saber de imperfeições.
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A inércia é o meu ato principal.
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Não saio de dentro de mim nem pra pescar.
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Sabedoria pode ser que seja estar uma árvore.
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Estilo é um modelo anormal de expresão: é
estigma.
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Peixe não tem honras nem horizontes.
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Sempre que desejo contar alguma coisa, não faço
nada; mas quando não desejo contar nada, faço
poesia.
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Eu queria ser lido pelas pedras.
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As palavras me escondem sem cuidado.
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Aonde eu não estou as palavras me acham.
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Há histórias tão verdadeiras que às
vezes parece que são inventadas.
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Uma palavra abriu o roupão para mim. Ela deseja que
eu a seja.
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A terapia literária consiste em djesarrumar a linguagem
a ponto que ela expresse nossos mais fundos desejos.
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Quero a palavra que sirva na boca dos passarinhos.
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Esta tarefa de cessar é que puxa minhas frase para
antes de mim.
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Ateu é uma pessoa capaz de provar cientificamente que
não é nada. Só se
compara aos santos. Os santos querem ser os vermes de Deus.
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Melhor para chegar a nada é descobrir a verdade.
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O artista é um erro da natureza. Beethoven foi um erro
perfeito.
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Por pudor sou impuro.
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O branco me corrompe.
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Não gosto de palavra acostumada.
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A minha diferença é sempre menos.
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Palavra poética tem que chegar ao grau de brinquedo
para ser séria.
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Não preciso do fim para chegar.
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Do lugar onde estou já fui embora.
FIM
(Barros,
Manoel. Livro sobre nada.2a. ed.Rio de Janeiro: Record, 1996.)