O inerme corpo dela, de tudo já distante.
Agora todo de si mesma. Imóvel, naquele estado de
coisa, de rocha, de concreto, de terra. Foi nesse instante,
ante a consumação do impensável, que
me dei conta da precisa grandeza de sua estada. Que sempre
soubera do quanto ela fazia pelos seus, pelos outros, certíssimo
era. Assim, precisamente, até então não
sabia, como agora soubera, o quanto também para mim,
por mim mais talvez fizera.
Moderna mulher. Pragmática, intuitiva e vocacionada
educadora. E comprometida profissional da Educação.
Assim fora numa atuação de inata servidora
sem nenhum traço de servidão. E também
como os tecidos, sabiamente bordava essa tessitura mais complexa
que entretém vidas. E nesta, como naqueles, avultava
a bordadeira nada limítrofe, que sabia ir além
de um ponto fixo, agindo com versatilidade e desprendimento.
Sob seus cuidados, porque não os dispensava, vários
e distintos estados. O de senhora dona de casa, apascentando
marido e filhos. O dos correlatos familiares. Todos com determinação
e suspicácia.
Performance capaz de adequar-se. Se amava as festas, onde
conjugadamente versam o espontaneísmo, a polidez,
a discrição, o expansionismo, tanto mais devotava-se
ao fazer. As várias atuações de que
decorria a construção do benefício.
Tanto mais ao outro, que, especificamente na sua área
de atuação, são os outros. Aos sujeitos
em crescimento, a cuja formação cidadã dedicava
o seu melhor.
Há homens e mulheres aos quais a inércia, mais
que inimiga do corpo, o é do espírito. A imobilidade,
quando lhes parece estar indo além do necessário
repouso, impacienta-os, incomoda-os. São talvez acometidos
de um indefinível sentimento de culpa. Como se aquilo
esteja já caracterizando um estado que, verdadeiramente,
abominam: a preguiça.
Seguramente, ela compunha o quadro de mulheres dessas. Nas
quais ainda perdura estável o gene daquelas que estão
para laborar, no sentido estrito que o étimo a este
verbete confere. Parece carregarem atavicamente em sua estrutura
psicogenética a conformação sociocultural
de destinadas à condição precípua
de servir. Seja à extraordinária capacidade
de agirem como matriarcais donas de seu lar. Seja como inigualáveis
matriarcas requisitadas pelos ramos familiares, que a elas
recorrem como o mais dotado recurso humano para a resolução
das constantes questões e conflitos.
Seguramente, ela compunha o quadro de mulheres dessas. Servir
plenamente. Em quaisquer circunstâncias. Prontas a
se dedicarem pelo outro; pelos outros. Dedicadas a vida toda
a essa causa: os outros, os quais, quaisquer, vêem
como seus.
E assim o são admiráveis mulheres modernas.
De suas antepassadas decerto são profundamente admiradoras.
Decerto têm-nas como mulheres sem as quais não
haveria o hoje. Decerto reverenciam-nas como a matriz, a
fonte da vida dada às vidas outras, suas próximas
e semelhantes. Decerto, por isso, as amam incondicionalmente.
Todavia, conquanto assim sejam, já não poderiam
mais a elas se igualarem, nem serem iguais a elas. E isso,
sobretudo, para continuarem a laboração pela
própria causa delas: a vida pela vida dos outros,
seu próximo, seu semelhante.
Agora, para que essa mesma causa se preservasse, já não poderiam
continuar pelas mesmas vias. Daí que, distintamente daquelas, refutaram,
com iguais labutas, sem nunca deixarem de servir, a submissão. Sem nunca
deixarem de ser muitas, sendo uma, rechaçaram a subserviência. Servidoras,
sim, porém não mais serviçais. Servir, sim, porém
não mais servis. Ser para os outros, sim, porém sem servidão.
Verdadeiramente, senhoras perante senhores. Donas perante donos. Profissionais
perante profissionais. Não fêmeas perante machos, mas, sim, verdadeiramente,
mulheres perante homens.
Seguramente, ela compunha o quadro de mulheres dessas. Seu inesperado, abrupto,
inimaginável desaparecimento, porque precocíssimo, causou profundo
abalo em todos: os outros, esses que fomos sempre a sua causa.