Leitura é fonte. Instaura
indimensionáveis venturas. Ensina a viver, apesar das
indesejáveis pisaduras. Encaminha às mais impensáveis
alturas. Expõe as espúrias criaturas. Dá
feição às enrustidas imposturas. Semeia
largamente incontáveis culturas.
A leitura é um trem portentoso a trilhar aclives, declives,
curvas incríveis, paisagens inesgotáveis. Trem
cujo passageiro, aceso em seus cinco sentidos, vai entre repousado
e atônito.
Leitura assegura a imortalidade. Torna o findo um constante
inacabado vivo. Leitura é uma senda a perdidos. A estrela
guia apontando a entrada. Ou a saída. Um farol à
nau perdida. A tábua a náufrago. Bálsamo
para uma causa perdida. A chave de um enigma. A iluminura
a certas angústias. O abalo de sedimentadas estruturas.
O barulho à serenidade de um silêncio. Incômodos
a certeza absoluta.
A leitura rompe com a ignorância. Atormenta as ditaduras.
Fomenta a paixão pela literatura. Desvenda obscuros.
Torna mais perceptível a formosura. Faz o conhecimento
conquistar desenvoltura. Aperfeiçoa a convivência
da diversidade. Expõe o podre, a lama, a falcatrua.
Desencilha de pesados fardos.
A leitura exercita a língua. Afia a fala. Provoca o
léxico. Instiga à consulta. Habitua à
pesquisa. Incute a sintaxe. Depura a prosódia. Requer
sinonímia. Evidencia o significante. Vela a significação.
A leitura sabe sobre o mundo dos homens, dos animais; sabe
sobre o mundo espacial, sobre o mundo da ciência. Sabe
sobre os mitos, sobre os místicos. Sabe sobre os sabores,
os rancores, os destemores, os despudores. Sabe sobre as estripulias,
as ousadias. Sabre sobre a imprescindível desnecessidade
da poesia.
A leitura despoja o âmbito dos elementos trágicos,
mágicos, dos fantásticos universos dos romances,
dos contos, das crônicas. A leitura põe ordem
no caos. Põe caótico um estado de ordem. Desestabiliza
uma ordem de Estado. Devassa a pudicícia. Heroíza
prostitutas. Diviniza certas musas. Deifica certas loucuras.
Bruxiza certas criaturas. Cativa legiões de ledores
compulsivos. Apaixona amadores de livros.
Em silêncio, a leitura é ato íntimo. Precisa
de só ser. E ser só com quem a provê.
A leitura habita espíritos recolhidos, jungidos. Reconforta
aflitos. Aflige ingênuos. Assusta tementes. Importuna
poderosos. Desestabiliza os que a desdenham.
A leitura é ato comunitário. Reúne pessoas.
Que lêem juntos. Que lêem umas às outras.
Que com ela se fortalecem contra grandes insultos. Pessoas
que tornam a leitura sua uma urdidura.
A leitura é o sumo da vida. Apazigua clausuras. É
entretenimento, que a infância entretece. Instrumento
com que se instrui o jovem. Alento e alimento à alma
do homem. Desvanecimento da velhice.
A leitura é cravo e ferradura. Constrói, mas
também discrimina criaturas. Uma contradição
que dói e dura. Instrui e plenifica, quando, mais que
dádiva, é direito à vida. Sujeita e danifica,
quando negada e impedida.
Ah! Sem nenhuma dúvida: leitura é a autêntica
vida. Se não passada, se presentemente precária,
é pacto inegociável de vida futura.