A mosca azul decerto perdida
e atraída, como a mariposa e os outros ínfimos
insetos de luz, surgiu, em seu vôo turbinado, pondo-se
a circundar a lâmpada.
Tratava-se de um fato singular. Pois do pouco que dela sabia,
tudo girava em torno da luz do dia. Tida e havida pela sabedoria
popular como a varejeira. Com seu zumbido peculiar zunindo
velocíssima pelo ar à cata do mínimo
cheiro de matéria morta decompondo-se. Parece, pois,
que o mórbido é que lhe sustenta a vida.
Ela viera de onde, sendo plena noite fechada, sem lua, estrelas
altas, escuridão da noite acentuando sua negridão
e, ali, o único cheiro forte sendo o dos livros?
Entrara-lhe pela ampla janela um vertiginoso zumbido que,
somente depois, a luz da lâmpada de mesa circundada
permitiu vislumbrar a forma de uma mosca.
E, em um dos seus curtos repousos, pôde saber que se
tratava de uma mosca azul. Uma varejeira? À noite!?
Então, pôs-se ele a voejar, em retrospecção,
numa velocidade oposta à da mosca, seu cotidiano noturno,
já meio longevo. Em nenhuma noite vivida houvera uma
mosca azul. Muitos, os insetos. Os cíclicos: a aleluia,
alguns besouros, os mosquitinhos. Os mais comuns, mais freqüentes:
os mosquitos domésticos, as formigas, uma barata. Os
mais raros: uma desgarrada abelha, uma perdida borboleta,
uma conturbada libélula. E próprios da noite:
as várias espécies de mariposa – miúdas,
graúdas, medianas. Nunca, entretanto, uma mosca azul
feito aquela.
Voou. Voou. E num desses vôos encontrou a tela do computador.
De novo voou. Agora em torno da tela. Tornou a assentar. Ficou
por alguns minutos ali, estática. Os olhões
esverdeados luminosos. Quem sabe, examinado as imagens. Sua
tromba sugadora procurando experimentá-las. Moveu-se
um pouco para um e outro lado da tela. Tudo rapidamente. E
logo alçou vôo de novo.
E assentou-se na parte anterior do monitor. Abaixo ainda do
botão liga-desliga. Como se naquela luz mínima
esverdeada houvesse encontrado uma companhia. Sim, porque
ali se deixou ficar. Parecia completamente à vontade.
Ele a um palmo dela, que se mostrava segura e indiferente.
Continuava a contemplá-la, desconhecendo-se a si mesmo,
cuja imobilidade advinha dessa total concentração
na mosca. Talvez porque fosse noite, e ela, imóvel,
abrangida pela luz da iluminaria era bem diferente da mosca
azul já tantas vezes vista. Mas não assim olhada.
A memória trouxe-lhe várias situações
em que a viu. Um boi. Um cão. Um gato. Um sapo. Animais
mortos expostos em pastos, terrenos baldios, ruas, estradas.
Putrefazendo-se, fedendo, empestando o ar e recobertos pelas
azuis reluzentes varejeiras que os roíam.
Mas também lhe trouxe a memória imagens outras.
Em certos campos de concentração de famintos,
em Biafra, em Bangaladesh, esqueléticas, inertes, estendidas
no chão, amontoadas, no regaço ou no colo de
sua mãe, crianças, ainda vivas, sendo roídas
por azuladas moscas.
E lhe trouxera ainda, a memória, costumeiras situações
em que comensais felizes, ante a farta mesa de apetitosas
comidas, em lautos almoços ou jantares, desesperarem-se,
quando súbito irrompe, a mil, uma ou mais delas atraída
pelo inebriante cheiro.
Ele mesmo, em situações desta, com a família,
foi caçador irado delas. Não se apaziguando,
senão exterminando-as, enquanto não as enxotasse
de vez. E se a atingisse, deixava-a como o poleá do
poema de Machado a deixou: “Rota, baça, nojenta,
vil”.
Mas, ali, não se pôs a dissecá-la como
fez o poleá. Pôs-se a vê-la que, com suas
patas dianteiras, limpava-se metodicamente. Limpava os belos
e grandalhões olhos esverdeados que se tornavam um
e enorme, quando olhavam para um só lado. Limpava a
tromba. Depois as patas traseiras limpavam as asas que à
luz fulguravam. Depois as patas traseiras limpavam o corpo.
Por fim, depois de muito limpar-se, acomodou-se um pouco mais
abaixo, como que se escondendo da luz. Ali se aquietou. Por
certo entregava-se ao justo sono de uma mosca azul.