Fora ver a quantas andava o jardim. Apascentava-o com a mesma
dedicação com que se entregava às suas
outras paixões. A indômita vividez de seu terno
pastor; a adorável vividez de seus inefáveis
netos...
Dava à displicência do livre crescimento dos
tendões da primavera um redirecionamento. Amarrava-as,
quando indomáveis afastavam-se da cerca, onde deveriam
distender-se como proteção e enfeite. Os espinhos
afugentando os gatunos. O colorido das várias cores
de suas flores atraindo e agradando os muitos olhares. A graminácea
verde e aparada. Livre das todas espécies de pragas.
Os pingos-de-ouro crescidos até os portes devidos rebrilhando
ao sol seu amarelo ameno. A brinco-de-princesa toda airosa
solta no meio com seu fêmeo porte exibicionista. Mas
contida, para que vaidosa, não invada os espaços
de domínio da acácia rosa.
E, estando nesse a esmo andar pelo jardim, a tudo perscrutando,
foi interceptado por alguém que, pela calçada
rente à cerca que ia sendo tomada pelas primaveras,
passava.
O interceptante, atarracado, grisalho, calvície em
pronunciada progressão, barba de dias, barriga saliente,
visivelmente peludo, saudou-o veementemente como um seu velho
conhecido, arrematando com o inevitável e constrangedor
“você está lembrado de mim, não
é”?
Ele, como quase sempre acontece em tais ocasiões, não
estava. Todavia, como também acontece em tais ocasiões,
debaixo de seu sorriso de constrangimento, disse que sim.
E logo disfarçou com o chavão despistador, ao
qual se recorre para que a memória tenha tempo de trazer
à tona a lembrança salvadora, perguntando ao
outro como tinha passado, o que andava fazendo.
O passante não se fez de rogado. Enveredou na deixa
e desatou-se num contar e contar-se sem fim. Funcionário
público. Fora ele quem, certa vez, levara-lhe ao conhecimento
um projeto de distribuição de material aos alunos
carentes. Projeto porreta. Na condição de presidente
da APM daquela escola, função que ocupara durante
vários anos, até que o filho deixou de ser aluno
dali. Mas a política havia intervindo. Enciumados parlamentares
vetaram o seu projeto. E novamente indagou se ele se lembrava
daquela grande façanha social que encetara, mas que
os medíocres e medrosos vereadores (entendiam que ele
estava fazendo campanha eleitoral com aquilo) não permitiram
seu brilho.
Ele de novo não se lembrava. Todavia, manteve-se no
mesmo tom desconversador. Que as coisas eram assim mesmo.
Que o importante fora a boa intenção social
dele, seu gesto humanitário.
O homem aí estava denunciadamente emocionado. O rosto
congestionara-se. Os olhos avermelharam-se, umedeceram-se
de lágrimas. E ele disparou na exposição
de sua tragédia. Aposentara-se com um salário
aviltante de funcionário raso. A mulher o deixara.
Um câncer encalacrara-se em seu abdômen e não
mais lhe dera paz. Alastrava-se de um canto pra outro. Uma
filha casada apiedara-se dele e lhe dera um puxadinho nos
fundos para viver o resto dos seus dias. Não era reconhecido
pelos netos, que mal e mal queriam ficar com ele. Decerto
a imagem de avô que lhes fora incutida era outra...
E enquanto atabalhoadamente, desenfreadamente ia assim dizendo,
já havia entrado e estava ali no jardim ao lado dele.
Já o corrigia nos arranjos que procurava dar às
primaveras; já apontava um cuidado que imediatamente
se deveria dispensar aos coqueirinhos: podá-los de
um jeito que ele sabia bem; já condenava a persistência,
no canto do jardim, de umas bananeiras (não podia,
quebravam toda a estética); já se indispunha
contra o tratamento dado aos cambarás...
E entusiasticamente, investido da sua condição
de antigo funcionário da Agricultura, que andara pelos
campos lidando com os campesinos de toda ordem (também
como um dos mais considerados ex-presidentes da Associação
de Pais e Mestres), pusera-se a ensinar ao dirigente daquela
escola as competências e habilidades devidas para um
ajardinamento de sucesso.