Um silêncio profundo dentro de sua intensa luminosidade.
De um sol cegante de tanta ardência de luz. Sol tropicalíssimo
com seu metal brasante pondo pavor em quem pensasse como seria
o inferno.
As manhãs compunham-se tácitas sob a fornalha
solar que, há pouco ateada pela aurora madrugadora,
irrompia o dia, cada vez mais pleno até o máximo
de seu fogo cáustico: o sol a pino.
Tácitas manhãs. Tecidas pelas leves, sutis e
apascentadoras mãos maiúsculas da tecelã
mãe natureza. Com suas muitas agulhas costurando a
manhã. Artesã maestrina compondo com cores breves,
efêmeras, indo do róseo-aurora ao ardente ouro
da tarde plenificada. Para depois, então, pôr
fim ao dia em tons próximos aos do início. Mas
um róseo mais cóbreo-roxo.
As múltiplas agulhas gorjeantes tecendo o manto-canto,
dando ao agudo silêncio seu mais depurado revestimento.
Toadas antitéticas – canarinas, pardocas, pombalinas,
rolinhas, siriris, bem-te-vis, sanhaços. À parte
os colibris e as borboletas dando em cima das flores que desabrocham
na ânsia de saciar sua sede de luz.
A agulha-vento com seus vários operários que
só em casos muito graves se revoltam e, enfurecidos,
tornam-se tempestades. A brisa. Ah! a brisa com seus sutis
toques suaves passeando os corpos, penetrando os poros. Brisa
mansa que beija e balança as coisas, os trastes, as
folhagens, os miasmas, os pauis, os belos louros, negros e
soltos cabelos.
A aragem. Ah! a aragem que torna ainda mais refinada a si
a delicada leveza de servir-se de refrigério. Com sua
indelével e perspicaz passagem mal fere a pele dos
lagos, dos rios, dos mares. Nos homens, nos pássaros,
nos bichos se limita, pudicícia, a percorrer tão-somente
pelas penugens. Sopra-lhes o bom e inebriante frescor imperceptivelmente.
Assim o faz em rítmica cadência alternativa com
sua irmã brisa. Esta vem com seu bom e leve, mas acentuado
sopro de boca cheia. Esvaziado, se vai, decerto, tomar fôlego.
Então, em socorro, a arrefecer a ausência dela,
entra a aragem com seus toques mágicos. Refeita a irmã,
ela se retira agraciada, nada se importando com ser uma adjuvante.
Sabe, por constatar nas faces, dos regozijos por tê-la.
É sabido também que sói acontecer, quando
em vez, há de ver porque as irmãs hibernam-se
em suas merecidas férias, vir ao trabalho a indolente
viração. Há quem afirma que a viração
é a plena maturidade a que chega a brisa. E que nesta
fase age por si mesma. Em contínua durabilidade. Vara
a manhã, a tarde e sustenta o bem estar da noite. Mas
aí ganha uma camaradagem. Sucede-a, já quando
a noite é andada, o arilho. Trata-se de um vento senhor.
Senhor meio áspero, com alguns caracteres casmurros,
com pitadas de rabugices. Por isso, quase sempre torna as
altas noites frias.
A tarde o que faz é curtir a indolência advinda
da dura incidência solar que a tudo fustiga com sua
fornalha em pleno vapor. Põe tudo em modorra. Os bichos
arfam ou adormecem sob a mais fresca sombra que as altivas
árvores garantem (Mas elas estão progressivamente
se acabando, que o homem, conquanto as saiba imprescindíveis,
ainda assim as corta; que o vício das drogas acúmulo,
abastança, poder não o deixa agir com os neurônios.)
Os homens, nos seus afazeres, vão mais devagar. Assim,
até a tardinha cair. É agora o sol quem vai
modorrento. O crepúsculo acalanta-o de forma irresistível.
Hefaísto cai em profundo e inabalável sono.
Eis então que a noite vem. Ficam ainda acordados, ávidos
por cortejá-la, mal adormece o sol, os homens. Que
os pássaros e os bichos, fidelíssimos ao dia
também se recolhem.
Ah! a noite com sua corte. Seu manto negro acoberta infindáveis
e excitantes segredos. A noite com seus sortilégios.
A noite é sempre uma moça encatadora, cuja turba
de convivas são sedutoras ninfas estelares. Todas sensualíssimas.
Enfeitadas com seus diáfanos diamantes. A liderá-las,
a filha mais prendada que a noite não entrega a ninguém.
Dizem que, se o fizer, ficará completamente cega. E
desse modo não mais conseguirá escapar, a cada
fim de noite, da tara voluptuosa que por ela tem o sol.
E prescrito está pelos deuses que, se o sol a possuir,
será o fim. E os tempos não mais terão
noites E, acabada a noite, perecerão todos os que precisam
adormecer para a vida. Dentre estes, os homens. Que perdidamente
amam a noite, mas que também, mal rompe a manhã,
acordam para se entregarem à devastação
do planeta onde a noite se esconde.