A flor da cidade. Uma magnólia exposta aos olhos todos
cobiçosos e reverencidores. Olhos gordos. Olhos que
buscavam devassar o intransponível. Por gula, prazer,
admiração, ou somente a curiosidade feita das
mais diversas intenções. Desde a comparação
(em que sou menos que ela?) à ânsia de identificar
um defeito mínimo que deporia contra aquele absoluto
esplendor.
Uma pobre cidade pequena, modesta, o seu reino. Rainha inconteste.
Portadora de rara beleza que mais esplendente ficava por seu
dom de bela amabilíssima. Por certo continha as rédeas
da vaidade. A todos com os quais se encontrava distribuía
sorriso e cumprimento. O que a credenciava ainda mais em simpatia
e bem querer. Bela, inteligente e cordial. Prenda-mor que
a cidadezinha, orgulhosa, ostentava e difundia.
Também a protegia como sua mais cara relíquia.
Era uma defesa natural. Como um pai protege a filha. Como
um pastor defende suas ovelhas. Como um bicho cuida de sua
cria. Os cidadãos todos da pequena pobre cidade se
comportavam como naturais guardiões daquele patrimônio
público encarecido. Houvesse algo errado contra sua
magna donzela, rapidamente se informavam. E medidas imediatas
se tomavam.
Parecia que ninguém ali pensasse em empreender uma
decisiva ação de conquista a si do coração
da magna donzela. Pertencia ela – patrimônio –
à alma coletiva. Logo não podia ser de um só
alguém. Não que isso se discutisse. Não.
Tal fato era de certo um tabu. Todo o mundo, sem o dizer,
sabia-o. Ela era uma pública donzela cujo usufruto
particular, mais que um abuso, seria um imperdoável
ato escuso.
Magnificamente vestida a caráter, ela assimilava os
cortejos, o gracejos, os motejos (os velados desejos) os inumeráveis
galanteios, onde fosse. No baile de gala mensalmente promovido
pelo clube. Nas concorridas festas juninas para os fundos
sem fundo da igreja. No palanque-mor, para prestigiar o desfile
de aniversário daquela graciosa pequena cidade pobre.
No carro-mor alegórico no desfile imperdível
da escola de samba do município.
Cada momento desses, mais servia para a cidade venerar a sua
deusa da beleza, que tão bem aqueles ciosos cidadãos
tacitamente sabiam preservar. E a cada tributo desse, retribuía
com seu efusivo sorriso, com a elegância de seus gráceis
gestos. Inefável flor encantadora daquele rude jardim,
cujos jardineiros esmeradamente a apascentavam.
Ela conduzia-se, não obstante jovem, com a maturidade
de mulher plena. Não transparecia nela traços
de pressa. Embora os anos andassem. Não havia notícia
de quaisquer espécimes de homem em sua vida. Isso havendo,
logo se saberia.
Sim, ausentava-se, rigorosamente, nos três meses das
férias de verão. Para onde, exceto a mãe,
que nada dizia, não se sabia. Nem se procurava saber,
por que não se sabia, tampouco por que não se
poderia saber.
O certo é que veraneava. Voltava ainda mais bela sempre.
Três meses de tácita apreensão. O receio
de que voltasse com um homem à tiracolo. O receio de
que não mais voltasse. Cansada daquela vida de pura
adoração. Desejosa de passar despercebida (o
que por certo seria impossível), fosse para uma grande
cidade, para nunca mais.
Mas os temores não passavam de temores. Voltava dourada
para seus adoradores. E sozinha, como sozinha ia. E dedicava-se
aos bailes, aos desfiles. Vestida de sua inigualável
beleza, de seu humor, de sua simpatia.
A cidadezinha com sua princesa. O caso ganhou a boca do mundo.
Em todo recanto se sabia do encanto que ali produzia a beleza
daquela mulher. Encanto de efeito comprovado: zero, o índice
de criminalidade. Zero, os índices de furto e roubo.
Zero, o índice de indigência. Zero, o índice
de pobreza absoluta. Zero, o índice de evasão
e repetência escolares. Zero, o índice de mortalidade
infantil. O fato, averiguado, causava espanto. Mas era uma
singularidade. Algo tão intrinsicamente próprio
daquela cidade. Não se prestava como modelo. Pois que,
ali, brotara, naturalmente, como uma rara flor. E tudo fora
se dando de forma simples e espontânea.
Todavia, deu-se o imponderável. A donzela bela, um
dia, amanheceu morta. A comoção vazou por todos
os poros da cidade. Espalhou-se pelo país a sua súbita
orfandade. E ninguém se atreveu a conhecer a causa-morte.
Era necessário, ainda que com muita dor, respeitar
o seu direito de morrer. A verdade da morte não era
necessária.
Decerto mudava seu modo de reger a paz daquela cidade. Passaria
a regê-la morta.