Então o bisneto, que em pequeno muita vez adormecera
a sonhar no embalo das histórias narradas pela avó,
cedeu às instâncias dos netos. Olhou bem dentro
de cada par de olhos estendidos na poltrona e anunciou. Trata-se
de uma história de pássaro. Longa história
e interminável no tempo do pai de vocês criança.
É a história da vida do gavião Pinhé-Pinhé.
Garboso pássaro carnívoro que reinou absoluto
por aqueles sítios campicitadinos. Atenção,
meninos, lá vem Pinhé-Pinhé.
Num vôo rasante, magnificamente aterrorizador (eles
britariam de espanto e ririam de medo), Pinhé-Pinhé
aterrisou. Soberbo pássaro. Imponente por natureza.
O garbo do porte, pouse onde pousar. Se no solo, se move feito
aquelas donzelas em passarelas modelares. Vai em si por si
mesmo. Não seduz. Impõe-se, que a fome tem pressa.
Nada escapa aos seus olhos como aos de águia. Porque
Pinhé-Pinhé também não é
a águia lá do sertão. O carcará
temível. Que, esse sim, mais da águia se aproxima:
em porte, feição e feitos. Come cobra, quando
há nada que se escolha. Ataca burrego, bezerro recém-nascido,
se o descuido do sertanejo, nos pastos os deixa. Carcará
é coragem e valentia, já o imortalizou a clássica
canção com que nos agraciaram José Cândido
e João do Vale.
Pinhé-Pinhé, todavia, não fica tanto
atrás. Tem suas ousadias. Sua morada, seu habitat,
as matas de pequenos sítios próximos à
cidade. Onde campeia. Com estridente piado de quem se acha
em guerra, Pinhé-Pinhé sobrevoa estes ares sempre
pronto para súbitos ataques. Ai dos pintinhos pelos
quintais, não obstante a não menos valentia
da galinha-mãe: penas todas eriçadas, asas abertas,
bico em riste, tenta investir em Pinhé-Pinhé.
Não lhe dá de barato sua cria.
Os pássaros pequenos – pardais, pombas do tipo
amargosa, sanhaços – apavorados se safam como
podem. Os bem-te-vis, porém, que por aí residem,
não só não se intimidam, como em Pinhé-Pinhé
investem bicando-lhe o dorso. Porque menores, mais ágeis
no espaço. E com seus agudos bicos molestam o doméstico
gavião Pinhé-Pinhé.
Salvo, finalmente, por um galho protetor, Pinhé-Pinhé
solta seu grito de guerra e raiva (Ai dos bem-te-vis: se os
pega, espedaça-os!) E seus extraordinários olhos
de super-homem espreitam todo o território. Quase impossível
que presas não vejam. Decerto estuda-as sem que muitas
não o percebam, não o pressintam. São
as mais vulneráveis.
E, súbito, sem que nada se desse, quando tudo no quintal
reinava em calma, sob o forte calor, Pinhé-Pinhé,
vindo não se sabe exatamente de onde, ali desabou.
Houve um reboliço de tatalar de asas e gritos de pássaros
em aflição.
E espantado de incredulidade, o dono do quintal viu o predador
debater-se, por instantes nos galhos de um pé-de-pinha,
derrapar no chão de cimento e ir pousar num galho da
goiabeira. Tudo num relance. Mas com ele nenhuma presa.
Verdade. Pinhé-Pinhé não abatera seu
jantar. E se não houvesse engano, que a natureza apenas
soubesse, o que o impediu foi, decerto, não contar
com o pé-de-pinha no meio do caminho. Ou por não
tê-lo dimensionado com a devida precisão, já
que aquele ia em seca progressão.
Certo é que Pinhé-Pinhé achou o alto
da goiabeira. Onde pousou decerto meio humilhado e cheio de
ira. Cometer tal deslize por certo depunha contra a honradez
dele próprio, sarado e garboso gavião. Ou fora
um prenúncio, aviso primeiro de que a mocidade já
o deixava e com ela iam as agilidades e espertezas?
No chão do quintal, viu-se que se debatia, desesperado
um filhote de pomba. Era a presa perdida. O dono do quintal
pegou-a. E constatou quebradura de pescoço. Estava
completamente acabada em seu princípio de vida. Melhor
e mais justo que Pinhé-Pinhé a abatesse logo,
que agonizar no pó do chão e depois se servir
aos vermes.
Decidiu, pois, depô-la em um galho de árvore
claramente exposta ao gavião que continuava no alto
da goiabeira. Moral abatida, embora não perdesse a
pose. Em absoluto silêncio (não mais emitira
seus pinhés-pinhés), mas atentíssimo.
E Pinhé-Pinhé veio. Por segundos, voando pairado
no ar, ficou diante da avezinha jazida. E de repente alçou
enorme vôo-de-embora, soltando seu pinhé-pinhé
de guerra.
Os meninos se entreolharam. Depois, o avô. E o mais
velho (em seguida repetido pelo mais novo): ah! vô!
Conta direito a história.