Viu-ouviu-viu o estampido. Sentia a presumível sensação
de um atingido. Não havia dor nenhuma. Mas se sabia
envolvido. O clarão cegando-o simultaneamente de tudo.
O corpo leve, solto, desgovernado como o de um astronauta
em inspeção interna. Assustou-se muito. E em
seus rodopios via plastas avermelhadas pelo chão, nas
vitrines, em finas roupas expostas, em flores de canteiros
ornamentais, em gente estirada, em gente em movimento. Pessoas
correndo, se contorcendo com expressões de dor e sujas
de sangue. Ouvia indecifráveis vozes de pavor, talvez;
de agonia, talvez. Depois, ainda flutuando, lenta e levemente,
como uma pena de pássaro pego por um tiro mortal, ou
uma folha seca desprendida, veio vindo ao chão.
Pousado. Sentiu insuportável tontura. Arrebatava-o,
autoritariamente, por mais que se opusesse, por mais que se
esforçasse por impedir, um sono poderoso, inafastável.
Agora, em seu sonho, conduzia-o uma daquelas macas motorizadas
para retirar jogador de futebol contundido. Embora a maca-móvel
trafegasse sobre o gramado do campo, ia estrepitosa, sacolejando-o
excessivamente, parecia mais contundi-lo ainda.
Então pôde ver que seu corpo seminu, torso descoberto,
pés descalços, calças rotas, rasgadas,
arregaçadas, ia manchado, escoriado de sangue vivo,
lhe escorrendo não sabia exatamente de onde.
Mas logo percebeu que se tratava de intensa chuva. Que lhe
batia nos cabelos, no rosto, enfim em todas as partes frontais
do corpo. Chuva vermelha. Sem, todavia, conter gosto de sangue.
Continha gosto agradável ao seu paladar. Que sorvia
discretamente com prazer. Gosto de mel de jataí que
sua mãe, a duras penas, comprava para curar-lhe uma
maligna bronquite danosa à saúde de seu primogênito
menino. Porém, logo tornou-se sabor de framboesa com
que hoje mistura em seu leite do café da manhã.
O leito em que fora deposto, de dureza rude, lembrava-lhe
a altiva rocha rente ao mar, onde mantivera, intensamente,
uma relação de amor, sob pálido luar,
prazerosamente, com uma formosa e gostosamente sacana garota
de programa. E, súbito, foi tomado de uma comoção
orgásmica. E de seu sexo semi-erecto jorrava sêmen
em profusão. Apavorado, envergonhado, procurava, inutilmente,
esconder-se de muitos olhos que, agora, de repente e surpreendentemente
o fitavam e da garota que, nua, rolava pela pedra de tanto
rir daquilo tudo.
E, enquanto assim procedia, a mulher apontava-lhe, com os
indicadores de cada mão, para o céu. De onde
vertiginosamente caía sobre ele uma enorme bola incandescente.
Apavorado, não conseguia mover-se do lugar. Tampouco
gritar, embora desse tudo de si.
Aí acordou com a mão da mãe sobre sua
cabeça e um complacente sorriso e olhar. Sentidos recobrados,
deu-se conta de que adormecera, enquanto lia, no jornal, a
notícia sobre o mais recente caso de homens-bomba vitimando
gente inocente na Indonésia.