A clássica rotina: campainha. O cara do correio. Sedex. Comprovante
assinado. Os agradecidos cumprimentos. A bicicleta sai rápida
em busca dos outros destinatários. Entra. Toda envolvida
na encomenda. Distraída, subindo degraus. Trancando
a porta, cerrando as cortinas.Curiosos olhos na gulosa busca
de sentido para aquilo. Não atinava com as identificações
do remetente.
E a distração fê-la sentar-se na primeira
poltrona mais à mão. As mãos, desde o
portão, vinham já, com o rasteio de hábeis
dedos femininos, campeando o objeto, na rápida tentativa
de obter-lhe a identidade. Não se tratava de livro.
Não costumava recebê-los, senão comprando-os.
Depois, o formato e a espessura também dissipavam essa
solução.
Extraído o invólucro de serviço dos Correios,
a primeira leve comoção. Vinha o objeto embrulhado
com papel para presente. Ansiosa, ficou ainda um pouco mais
fruindo aquela surpresa que se desfaria, tão logo executasse
o desembrulho. Fino papel de seda. Delicadeza a toda prova.
Primeiro indício de bem querer enunciado. Outro eram
os desenhos em abstratos coloridos, lindos, que todo o papel
compunham.
Então, papel esmeradamente aberto, sem que lhe imprimisse
qualquer contusão, a surpresa ficou toda nua ante seus
sentidos todos encetados nela. Acompanhava-a um pequeno envelope
fechado. Onde, por certo, haveria mais outra emoção
esperando-a. Conteve-se. Protelou-a para depois de ter-se
dedicado satisfeitamente ao objeto principal. Aquele, pela
própria natureza, indiciava alguns dizeres, decerto
de felicitações.
Havia recebido um quadro. De tamanho mediano. Quase quadrangular.
Moldura dourada com relevos, sugerindo trepadeiras floridas
percorrendo a cerca-moldura. No centro, a ampla foto de uma
flor.
Uma rosa. Uma rosa sem tamanho. Toda vestida de um lilás
resplendente. Fixa numa firme verde haste cujos espinhos,
nítidos, com sua ponta enegrecida e rubro úbere,
decerto punham-se em guarda daquela formosura exposta a indefiníveis
olhares cobiçosos.
Embora pendida, era uma rosa toda acabada em seu ciclo de
fazimento. Resplandecia-se em seu inteiro vigor de flor completamente
feita. Acendiam-se suas grandes pétalas vivazes com
a incidência da luz solar tomando-as todas.
Entre embevecida e ansiosa por ouvir a carta acompanhante,
deixou-se um pouco levar por emaranhados meandros da lembrança,
com que insistia para suscitar-lhe algo vivenciado, em que
rosa semelhante fora personagem destacada. Todavia os episódios
onde houvera flores não lhe restauravam uma rosa assim
maravilhosa, embora insinuassem. Algo dizia que sim, que houvera,
houvera.
Claro, a carta desfaria o enigma. E sofregamente contida abriu-a:
Para felicitar-te nestes teus anos, a beleza da rosa de teus
encantos. Decerto não te lembravas mais dela. Talvez
também nem de quem te oferta-a. No entanto, ambos,
o oferente e a flor soubemos bem assistir ao teu acentuado
deslumbramento silencioso ante a magnitude daquela (essa)
rosa.
Dia depois, este oferente foi insistentemente tentar obtê-la
da proprietária. Que amável e resolutamente
resistiu. Mas concedeu, no dia seguinte, que ele pudesse fotografá-la.
Eis aí aquela rosa, agora, aí perenizada, tal
como te encantou. É tua. A que viste não existe
mais. Tampouco contigo existiria, se a tivesse ganhado como
uma rosa.
Seja feliz, como decerto o foi essa tua rosa, enquanto viva
fora.