Filhos.
Não tê-los, seria o fim. Mantê-los acaba
sendo o que se tem por fim. No fim, sabê-los melhores
do que fora. Pódio almejado quando se cuida desse vale
de lágrimas, desse deus-nos-acuda.
A trilha de um filho em que se semeiam múltiplas minas:
o canto das serias doidivanas; a magia dos alucinógenos;
a sedução das vitrines; a decantação
das linguagens com suas insinuantes pabulagens.
Filho estabelece estados vários no estado-família.
Há que lhe prover com a melhor comida. Há que
lhe obter as melhores acolhidas. Há que lhe conceber
as mais dignas tratativas.. Há que lhe dotar das necessárias
sabedorias. Há que lhe coibir as deformantes idolatrias.
Há que lhe preparar contra as muitas patifarias. Há
que lhe aclarar as destrutivas evasivas. Há que lhe alertar
sobre as inúteis confrarias. Há que lhe vacinar
contra as corrosivas mesquinharias. Há que levá-lo
a aprender os estados de calmaria. Há que lhe ensinar
os vários estratagemas contra os pusilânimes e
as covardias. Há que lhe dizer sobre as astúcias
das piratarias. Há que lhe encarecer os benefícios
da disciplina. Há que lhe apontar os prós e os
contras da rebeldia. Há que prepará-lo para as
incessantes alquimias. Há que lhe acautelar das imperceptíveis
ridicularias. Há que encorajá-lo pela conquista
de sua autonomia.
Um filho põe um pai não só na condição
de animal protetor. Bole com seus sossegados neurônios.
O que lhe a de vir e o que lhe a de ser vão com ele onde
for. Um pai por seu filho tudo faz. Dá-lhe mimo e cartaz.
O quer, das crianças, a mais sagaz. Esforça-se
por aceitar quando ele fica para trás. Um pai, mesmo
o que de abrir-se não seja capaz, desmantela-se todo
ao vir enobrecido o seu rapaz. Um pai sempre estende ao filho
a sua bandeira de paz. Um pai projeta-se manifesta ou hermeticamente
na virilidade do filho tenaz. Põe-se em consternação
inconsolável, quando se lhe insurge um filho sequaz.
Põe-se cabisbaixo, alquebrado ante um filho ferrabrás.
O sonho de pai é ter o filho alcançado ao triunfo.
A esperteza do pai pelo filho acaba, muita vez, o tornando um
grande intruso. A defesa cega do pai em favor do filho acaba
quase sempre em inaceitáveis abusos. O excessivo zelo
que lhe vota o pai, muita vez, põe o filho em desespero.
O maniqueísmo por que se conduz o pai constrói
o filho que vive com o medo em pêlo. A nenhuma humildade
do pai fomenta o filho soberbo. As inoperâncias e truculências
de um pai em desmazelo põem o filho em aflitivos atropelos.
Os moralismos freqüentes do pai inconseqüente resultam
um filho a esmo.
A confiança do filho no pai abre as portas para sua eterna
aliança. As surras levadas pelo filho inoculam-lhe indefinido
sentimento de vingança. O impacto que lhe imputa a alargada
ignorância do pai semeia no filho uma ignóbil ganância.
A incauta desfaçatez que move o pai instaura desgastantes
conflitos com o filho, uma relação tecida pela
completa escassez. Embora pareça meio impossível,
muita vez, um filho tem o pai com declarado inimigo: porque
é homem de pouco siso; porque é homem que não
sabe dar senão tiros; porque é torpe marido; porque
tem com os outros contínua atitude de bandido. Um filho
conflita com o pai em virtude de oriundos das famigeradas gerações
opostas. E, em vez de se darem conta disto, se dão as
costas. Muita vez o filho é um prestimoso e dedicado
pai do pai que passa o resto dos seus dias como sendo um filho
que desfaz, acusando de pouco, o muito que lhe proporciona aquele
filho pai.
Um filho ao pai: o meu pupilo; o meu guri. Um filho ao pai:
o meu menino, meu orgulho, meu futuro. Um filho, ao pai: ele
vai sair dessa, com minha luta, com minhas preces, com minhas
promessas. Um filho ao pai: por quê, o que não
fiz por você, o que não houve para o merecer?
O pai sabe que a mãe lhe precede no coração
do filho, conquanto normalmente seja ele seu grande ídolo.
Um pai: os passos do filho levando consigo os projetos, os sonhos
que se fizeram por seu destino.