O
mundo em reboliço. Ou o reboliço do mundo aos
nossos olhos. Aos nossos ouvidos. Mudou o homem? Ou mudaram-se
seus conformes?
O mundo do avesso? Ou o avesso desse mundo justaposto ao seu
oposto? A extensão do homem cada vez mais. O homem a
passos grados, de ano em ano, de século em século,
estendendo os seus tentáculos. A Terra, seu criadouro,
majestosa esfinge pródiga e prodigiosa, túmida
de mistérios e enigmas, a sedutora permanente.
Irremediável possessor; compulsivamente conquistador,
o homem. Dilacerado por sua obsessão em desvendar-se,
em atingir o mistério de sua trajetória imponderável;
inconformado com sua individualidade efêmera, com sua
subjetividade limítrofe, o homem.
E o seu subjetivismo gerou sua diversidade. O olhar de cada
homem concebe-lhe a face do mundo; concebe-lhe os enigmas do
mundo. São muitos mundos esse mundo único. Onde
há fundos e sem-fundos; límpidos e imundos; deuses
e diabos; nadas e paraísos.
E o homem assim sendo é bem menos interação.
O confronto o estabelece e o desaparece. O confronto o forma,
informa e o deforma. O viés do mundo consubstanciado
pelo gozo de seu conforto. A esfíngica resistência
da Terra instigando suas descobertas; que a tornam cada vez
mais menos natureza. O homem com suas angústias; com
suas indústrias. O homem com suas lesões, com
suas devoções. O homem escavando seu infindo e
desconhecido (definitivo). O homem consciente de que talvez
para todo o sempre se desfaz, porque o atormenta a inércia
da paz. O homem consciente de que vem de fatídica insaciedade
sua inacabada porção de ferocidade. O homem com
cujas dúvidas se conduz. O homem em sua peleja impelido
por seus sonhos, desejos, medos que intrinsicamente o adejam.
A Terra que muita vez dá sinal de incrédula parece
recorrer em vão a muitas formas de dizer que tudo isso
muito a aterra. Decerto por se supor, sem ser presunçosa,
de si absoluta senhora. Daí bem saber que a tudo e a
todos em seu seio sobeja, ainda, seivas à vida. Mas também
decerto presumiu que teria existências pacatas em formas
animalesca e vegetativa.
Então decerto não contava com uma desarmonia,
da qual despontasse uma linhagem animalesca estranha. Cujos
nervos, músculos e sangue vibrassem uma viva energia
nervosa que resultasse em atos abstratos, elaborados numa caixa
cefálica de pensar.
E tais, contrários a todos os outros demais, fossem molestar
seu o estaus-quo: cosmos que após o caos se fez. Auto-suficiente,
ela todos proveria, sem exceção, conforme os mecanismos
de equilíbrio e harmonia com que se estabelecera. A vida
e a morte; o ar, a água, o fogo. Tudo em si encontrar-se-ia.
Bastava a eles moverem-se em busca da comida, do abrigo e preservar-se
do predador inimigo.
Entretanto, aquela estranha linhagem animal decerto a foi surpreendendo.
Seus procedimentos em exclusiva atenção aos seus
próprios provimentos foram irreversivelmente sendo de
modo a incomodá-la. Do incômodo a transformações
agressivas. Destas a intervenções transgressivas.
Aos poucos e progressivamente, o animal homem veio, cada vez
mais ávido, modificando dela o estado-cosmos. Onde antes
era tudo terra, água, matas, bichos, pássaros,
ele foi derrubando, afugentando, desviando. E foi erguendo cavernas.
Paliçadas. Ocas. Tabas. Castelos. Muralhas. Casas. Prédios.
Estradas. Pontes. Carroças. Carros. Trens. Automóveis.
Metrôs.
Foi o homem impondo-lhe ao seu estado natural o dele estado
artificial: social, econômico, político, cultural,
tecnológico. Foi o homem estabelecendo na Terra um estado
de coisas: um homocosmos. Complexo. Dividido em inumeráveis
compartimentações categoriais: países,
classes sociais, religiosas. Homens pobres, ricos, mendigos.
Terras divididas entre propriedades de alguns. Impróprias
a muitos. E esses multíplices divisionismos o foram refinando
em exímio homicídio. Logo a prática do
genocídio que alcançou a alçada do banal.
Extermínios dos mais comezinhos aos sempre espantosos.
Cometidos por grupos, indivíduos, países com as
mais sofisticadas armas.
Parece que à beira do impasse ante a decepcionantes revelações
sobre si mesmo, não obstante o estágio de seu
homocosmo, o homem se conduz ao caos. E de roldão levando
todo o resto da terra, precipitando a Terra a seu novo caos.