(Ághata:
meu e-mail continua damaso, quando deve ser damazo)
Morto. A alcunha que na vida diária lhe substituíra
o sobrenome. João Morto. Homenzarrão. E gordo.
Um touro. E manso como toda força bruta. A surdez talvez
ajudasse. E, em vez de irritá-lo, ela por certo o impelia
a buscar a paciência do interlocutor. Homem pau-pra-toda-obra.
Sorriso lábil fácil. Ser para os outros, tamanha
era a solidariedade de João Morto. Lídimo exemplo
de o feio bonito lhe parece.
Fora para ali aplacar a epidemia de malária. Pertencia
ao quadro de funcionário da Saúde que a isso se
destinava. A maleita e o mal de chagas. Pulverizavam casas e
casebres em sítios e matas. O lugar, um recanto repleto
de faltas, isolado, de difícil acesso. João Morto
instalou ali seu sossego. Pois o feio bonito lhe parece: João
Morto se casou com uma professora de escola primária.
Vieram as filhas radicando-o ainda mais naquelas plagas em que,
devagar, ia contornando suas pragas.
Criou-se a escola secundária. Cursos diurnos e noturnos
com séries de quinta a oitava. Formou-se uma classe de
alunos adultos. Quase todos alfabetizados pelo Mobral. Exceto
um ou outro. Dos quais, João Morto. Estava acima do grupo.
Descobrira a leitura há muito. Numa certa ida demorada
para longínquos sítios e fazendas, levara um livro
que lhe caíra à mão: Mar morto. A curiosidade
da coincidência levou João Morto a ler. E Jorge
Amado lhe fisgou o gosto.
Na escola, o professor de português o soube. Ficou surpreso.
Aquele bruta homem que se lhe figurara um bronco! O período
escolar foi para ele uma bênção. Exultava-se
com as aulas. A todos socorria. Como se professor. Os professores
um bando de meninada nova, recém-formados, eram-lhe instigação
intelectual. Discutia. Perguntava. Consultava. Disparadamente
o mais arguto e ligado.
Foi descobrindo cientistas, filósofos, poetas, romancistas
outros. Encantou-se com Graciliano Ramos. Vidas secas foi seu
assunto contínuo quanto tempo! A gente quase toda daquele
lugar provinha do Nordeste. Como eles mesmos repetiam, era tudo
cabra da peste. Para João Morto, ninguém, portanto,
podia deixar de ler aquele romance. Instigava os professores
de português a tornar a obra leitura obrigatória.
Por menos que nada ali acontecesse, ainda que em tudo parecesse
sempre igual, o lugarejo ia pontuando-se de gradativa progressão.
João Morto seguia cada vez mais surdo. Porém,
a alma viva. Riso fácil no princípio; ou no meio;
ou no final de alguma conversa. Ou durante, quase sempre.
Já descobrira Dostoiévski, andava querendo saber
sobre Proust. Dissera ter curtido longo silêncio antes
de anunciar aos professores que tinha lido Grande sertão:veredas.
Tal o assombro.
De jeito nenhum suas filhas ficariam ali o resto de sua vida.
Também elas já haviam vencido os níveis
de escolaridade existente. Foi-se embora para uma cidade maior.
Onde muitos parentes moravam. Aposentado. Vida de dentro de
casa. As leituras, por mais prazerosas, não foram suficientes
para impedir o tédio que, segundo o médico, tornou-se
dura depressão.
Pegou doença física que o atirou em UTI. Não
sabiam ao certo de que exatamente se tratava. Foi difícil
e longo período. Safou-se, porém. Precisava fazer
alguma coisa. Se não, tudo acabaria se repetindo.
Mas o quê, naquela altura? Viveu uns meses assim se indagando,
enquanto vagava pelas calçadas, afugentando os males.
Observava a vida que ia se desfiando nas ruas; nos bares; nos
bazares; nas praças; nos pássaros. Trocava cumprimentos
e sorrisos. Proseava numa banca. Reinvestigava as mesmices de
uma única (livraria) papelaria.
Foi então que lhe cruzou o caminho seu Antônio
Rosemiro. Fazendeirão sem igual lá daquele lugarejo.
Vivia agora só que passeava. Tudo nas mãos dos
filhos. Ordem médica. Ia mais a velha conhecendo os grandes
comércios do Brasil.
Depois de muita prosa mutuoinformativa, seu Antônio Rosemiro
firmou com o outro acordo apalavreado. Dentro de um ano, com
tolerância de mais meio, João Morto teria pronta
a vida romanceada de Antônio Rosemiro, o maior fazendeiro
de Natelópolis, onde por muitos anos conviveram. Enquanto,
João Morto já ia cogitando em fazer a mesma proposta
a outros importantes conhecidos seus.