As
teorias educacionais. Versáteis. Mutáveis.Vivas.
A sua aplicabilidade embasada em seus princípios ideológicos.
Nunca ele rechaçara peremptoriamente alguma. Tampouco
tomara uma como a única. Com todas ensinara e aprendera.
Aprende-se, ensinando. Ensina-se, aprendendo. A prática
pedagógica exige tomada de decisão, posicionamento,
medidas, procedimentos. Para os quais os múltiplos pressupostos
teóricos saem em socorro. Sobremaneira, agora, quando
a verdade em voga advoga que os educandos são cada um,
aos quais se devem as suas devidas medidas.
Lia. Em reuniões, encontros, discutia, com certa veemência
muita vez, postulados, fazia as suas postulações,
ouvia outras. A educação era o seu cotidiano.
Com a educação construíra sua vida. A de
seus filhos. Também, cria, por meio dela, ajudou multidão
de meninos e meninas, moços e moças a pensar o
mundo, a construir estudos, caminhos que conduziam a leituras.
Por mais que não se queira; por mais que a isso se faça
pouco; por menos que nisso se acredite; a escola, antiqüíssimo
lugar de ações que se pretendem sobre o ensino-aprendizagem,
continua um laboratório de vivências. Sua história
inscreve-se de superestimações, de conservadorismos,
de mesmices, de transformações, de vilipêndios,
de morte anunciada, de elitismo, de superficialidades, de autoritarismos,
de liberalismos, de grandezas, de pequenezes, de súbitas
surpresas.
Raul Pompéia, em seu Ateneu, uma obra literária
primorosa, que escolas de hoje não suportam estudar,
representa alguns desses aspectos. E o faz sob um verismo irrefutável,
hoje ainda mais: a escola é um microcosmo. Nela, a vida,
sócio-econômico-cultural está representada.
É certo que o ateneu que o Ateneu de Pompéia figurou
era o de uma das poucas escolas e aristarcocráticas da
época. Cujos resquícios sobreviveram às
expensas dos contemporâneos requintes e continuam a serviço
de privilégios para privilegiar.
O ateneu em que ele vivera construindo a sua vida e vidas (não
obstante a presunção que talvez daí se
infira) fora o de escola pública oficial. Escola cujos
primórdios, como sobejamente registra a história,
também era de poucos. Muitos poucos.
A expressão estereotipada e ainda corrente é a
de que nela estudavam os filhos dos que podiam. Os filhos dos
que não podiam freqüentavam toda ordem de trabalho.
Estudo era coisa de rico. Certo: com a abertura do período
noturno, começavam as escolas a enveredarem-se pela via
da democratização. Assim sendo até abeirar-se
à condição de escola popular como a de
hoje. E sua popularização atingiu tanto o banco
(a carteira) quanto a cátedra (o magistério).
Sua formação se fizera no seio dessa escola que
viera se popularizando. Estudante de curso noturno desde o denominado
ginásio. Curso universitário noturno. Ingresso
no magistério público oficial. Vivera, pois, essa
evolução. Ora inconscientemente. Ora com mais
clareza e consciência do processo. Era, então,
um espécime da escola popularizada, na qual fora carteira
e depois se tornara cátedra.
E nesse percurso muita teoria pedagógica passou sob o
céu (e o inferno) e no seio desses logradouros de ensino
estatal. Passara tanto pela carteira quanto pela cátedra
ouvindo, vendo, discutindo, dizendo e de certo modo, até
a um certo ponto, combatendo um outro verismo irrefutável:
a escola da elite e a escola dos pobres. Estigma que a democracia
haveria de corrigir. Aspirava-se à escola única.
Onde coubessem ricos e pobres. E que esses metais fossem amalgamados
por uma educação que disso fizesse resultar uma
mais fina e sã realidade. Em vão. Parece que não
dão liga. A estampa mais rica logo se confina. Restou
uma escola pública única, majoritariamente, aos
pobres. Então a nova utopia: uma escola aos pobres (que
verdadeiramente não a possuíam), mas que não
se permitisse ser uma escola pobre.
Para isso podem pouco as mais variadas teorias educacionais
e pedagógicas. E muito pouco ainda é, se a elas
se agregar puramente uma vontade política desacompanhada
de vontade econômico-financeira sólida e determinada.
Enquanto não: sem escola pública única,
onde conviveriam ricos e pobres; mas escola de pobres em tudo
ainda muito empobrecida.