Aprendera,
sobretudo com a vida, que o ângulo pelo qual se olha é
que configura uma realidade. Logo, não há a realidade
única. A realidade não é a mesma.
Viu, tem visto e decerto verá, enquanto seus olhos não
estiverem mortos, que o belo é também feio; que
o trágico contém lirismos; que o cômico
contém tragicidades; que a morte também não
é o fim da vida; que o triste contém beleza; que
o sagrado também é o banal; que o profano é
o cotidiano; que Deus é também o problema; que
o bandido também é mocinho; que a mentira contém
suas verdades; que o destino, construído desde menino,
sempre se depara com certos desatinos; que muita velhice vive
crivada de meninice.
Então, quanta coisa que, dada por inválida, tem,
súbito, alguma validade. As insignificâncias inobservadas
de repente surpreendendo. Haja vista a vida. A natureza instituiu-a.
Fê-la ser. O instituto da vida vigorando em sua miríade
de seres. Os sabidos e conhecidos. Os dessabidos infindos. Súbito
se insurgem, muita vez causando espanto. O que não se
conceberia poder haver.
Seres vivos. Inconcebíveis. Todos com seu destino, defendendo
a vida, com modo e hábito de agir com o instinto que
a natureza os dotou. Todos à caça dura do que
lhes garantir a sobrevivência. Decerto não sabem
por que, pra quê. Sobreviver é preciso. Que a vida
lateja na sua exigência de permanecer criando necessidades
físicas, necessidades de proteção, que
a lei da sobrevivência não prescinde de que os
seres sejam predadores entre si. As ervas, vidas, são
pastos dos herbívoros. As carnes, vidas, são pastos
dos carnívoros. Assim se consuma a sina de que é
preciso morrer para que haja a vida. Então, a vida, que
se quer eterna, é um extermínio de si mesma.
Matar é um ato próprio do que é vivo. O
vivo vive de matar. Os microorganismos invisíveis, feitos
bactérias, feitos vírus sempre perseguidos, pois
vivem se constituindo em sérios perigos a seus hospedeiros.
Os insetos – os pernilongos, os mosquitos, as pulgas –
são incontinentemente repelidos, mortos, pois que tidos
como perigo à vista. Mas também a aranha, a barata.
E era justamente uma barata que tinha ele, naquele instante,
diante de si. Ela também, por certo, percebera que ele
a percebera e a tinha com aguda acuidade toda em suas retinas.
Tratava-se, certamente de um homem. Fosse uma mulher teria gritado
histericamente e batido em retirada propalando que havia lá
uma barata. Homens, não. Geralmente precipitam-se sobre
elas para pisoteá-las. Esmagá-las. Estava, pois,
em altíssimo risco de vida. Ambos estáticos. Pressentia
que o golpe dele estava na iminência de ser disparado.
Não compreendia por que ele demorava tanto daquele jeito.
Mas alentava-se por isso. Ia ganhando tempo, para sentir a direção
pela qual conseguiria escapar com maiores chances de que ele
pudesse não alcançá-la. Ele continuava
paralisado. O que a afligia muito. Deveria ter-se preparado
já suficientemente para apanhá-la por qualquer
lado que fugisse. Errara em lhe permitir tanto tempo assim.
Homens são mais astutos que baratas. Em pânico,
decidiu-se por fugir pela porta quintal afora. Sua estratégia
era rapidamente ganhar o gramado pelo qual se imiscuiria, fazendo-o
perdê-la de vista.
Melhor assim. Nada de correr atrás dela. Que vivesse
ainda mais um pouco. Quem sabe indo de seu quintal à
rua. Até que uma galinha ou pássaro famintos a
encontrassem.
Sentia-se aliviado. Pois, se tivesse fugido para algum outro
local de dentro de casa, estaria obrigado a caçá-la
e exterminá-la.