Século
XXI. Ele vendo e vivendo sua fatia de vida moderna-pós-moderna
instaurando o inusitado, o inaudito. Muita vez, ao mesmo tempo,
não apenas decompondo o passado, mas também o
sobrepondo. De tal sorte certos diálogos se estabelecem.
Dos quais se insurgem os contrastes que a história em
suas páginas feitas de tempo e espaço inscreve.
Uma fazenda. Não qualquer fazenda dessas de gado, pasto,
lavouras (muito escassas já) e gente (escassa ainda mais).
Tais quais as que são signos escritos nas páginas
desta modernidade e pós. Fazendeiros quase todos feitos
à Paulo Honório. Que se não tão
obsessivamente reificadores de tudo e de todos, são determinados
na consecução de avantajados lucros na expansão
da condição de proprietários.
A rigor uma ex-fazenda. Uma fazenda fantasma, talvez. Pois que
ali sua estrutura arquitetônica, claro: in made Europa,
fora sendo preservada. Nada se modificara. E não tombada.
O dono, sim, é que se mudara. A ela passou a construir
um outro destino que não o de outrora. De outrora ali
estão todos os prédios. Estão neles grande
parte dos objetos. Os móveis puros mognos. Ali não
estão mais os diretos responsáveis por sua montagem;
os diretos responsáveis por seus grandes lucros e ganhos;
os diretos responsáveis pelos grandes danos desconsiderados.
Ali não estão mais os homens-força de trabalho
– afroescravos e europeus migrados, envolvidos, ainda
que talvez não misturados, na construção,
manutenção e excedentes daquele proeminente patrimônio.
Agora, estão todos misturados, sim, igualados em terra
que os desigualavam, senhores e súditos. Que, o que a
sociedade separa, a natureza amalgama.
Ficou uma fazenda museu. Digna das visitas excursionistas turísticas.
Para esse fim, mantida pelo seu proprietário século
XXI. Há, como todo patrimônio turístico
que se valorize, um roteiro de percurso que se faz com a condução
de um guia. Um desses, o próprio proprietário
que com isso visivelmente se realiza. E os que ali vão
o reverenciam, por essa contribuição à
história social de nossa civilização, cujo
custo grosso depende de seu bolso. Pois a fazenda não
é, obviamente, exceto em arquitetura, mais aquela fazenda.
Tampouco é fazenda destes séculos XX/XXI. É
improdutiva e fantasmagórica.
Percorrendo-a a fundo, deixando-se levar pelas páginas
da história prolatada por seu proprietário-guia,
vai-se infiltrando naquele tempo século dezenove/vinte
em que o café paulista era o precioso ouro sustentador
de toda a corte brasílica. Fora uma fazenda-civil, que
sua tecnologia, para um país semi-agrário, era
muitos anos-luz de seus dias.
Sua estrutura espacial, modelarmente, é feudal. Seu funcionamento
era de independência. Autobastava-se. Auto-abastecia-se.
Quase nada se buscava fora. Coisa pouca: sal, alguns finos tecidos
e calçados, bebidas da Europa.
No centro, os terreirões de café. Ali a produção
exposta à secagem. Toneladas. Que, no ponto, iam à
grande tulha, onde outros súditos dedicavam-se à
descascação e embalagem. Enquadrando o terreirões,
a casa-grande cetralizada e altiva, com seu alpendre; o terraço,
sob o qual tudo ficava exposto à vista do dono. De fronte,
mais longe, a igreja, também assentada na sua altivez.
Os dois máximos poderes contíguos na zelação
de seus contritos.
Fecha o círculo de uma a outra, de um lado, os locais
de trabalho: oficina, serraria, serralheria, tulha, a casa das
máquinas (a fazenda funcionava a energia a vapor). De
outro, o escritório de administração, o
grande armazém de mantimentos, a casa de diversão
– uma espécie de cineatro, uma estrebaria em cujo
fundo ficava o curral. Perpendicularmente ao primeiro semicírculo,
vão enfileiradas as casas geminadas que abrigavam os
empregados agregados à fazenda, às ordens do senhor,
para cujas riquezas despendiam seu suor, emudeciam seus sonhos,
desvaneciam seu futuro.
Ao visitante do presente do futuro que àqueles não
pertenceu, ir e vir pelos assoalhos solitários do casarão,
por seus porões de oca escuridão, por seus terreirões
de café vazios, pela igreja com seus vestígios
de catolicismo de requinte, a esse visitante o orgulho entusiástico
do atual proprietário não deixava de ser um contributo
à preservação da memória histórica.
Ainda que se tratasse de uma história (afinal, a ela
não cabe essa subjetividade) nada honrosa tanto a ele,
proprietário daquele legado, quanto àqueles visitantes,
herdeiros de uma cultura povoada de senhores, assenhoreados,
riqueza e privações. Que, em verdade, tem tão-somente
mudado em século.