No
Roda Viva da Cultura. O cantor e compositor de hip hop sentado
na cadeira em que circulam normalmente celebridades. Tanto do
bem quanto do mal, ou nem tanto um e outro. O cara é
da comunidade da Cidade de Deus. Tripla glória: além
destas duas, publicara de parceria com outro um livro, resultado
de longa pesquisa-entrevista com moradores dos guetos das grandes
cidades (capitais) do País. Coisas sobre a vida marvada:
violência, drogas, crimes, misérias, preconceitos,
desempregos crônicos, desejos, anseios impossíveis
instigados pelos meios propagadores das relíquias do
mercado.
Cabeça de Porco, o título da obra. Os inquisidores
no programa e telespectadores iam do conteúdo do livro
à história do hip hop. Os primeiros transpareciam
ter lido o livro, embora o mesmo não tivesse ainda oficialmente
dado a público.
O compositor – por isso classificado ao final do programa
pelo apresentador de “cara de pavio curto e pouca conversa”
–, em atitude solícita, entre rispidez contida
e respostas abruptas e diretas, parecia tenso, nada à
vontade.
Todavia, quase tudo de todos era discretos e moderados elogios
ao hip hop e ao Cabeça de Porco. O artista em voz abafada
e cara amarrada sussurrava seus obrigados.
Descansado na poltrona, da qual acompanhava com atenção
em sua tevê, ia entre acusando mentalmente o conjunto
de pronunciamentos e perguntas de chocho e vazio e admitindo
que o compositor era desenvolto, fluente linguagem, raciocínio
lógico e rápido. E o teor de suas réplicas
continha interessantes, significados, o que acabava dando qualidade
de conteúdo aos banais assuntos decorrentes dos inquisidores.
Pensou também, longe mesmo de querer subestimar quem
quer que fosse, que o hip hop, com o qual não gastava
nenhuma parte de seu tempo dedicado à fruição
estética, passara a ganhar muito mais bons olhares da
média classe brasileira, depois que Chico Buarque deu
de andar dizendo que o mesmo exerce um papel semelhante, e com
mais contundência, pois que livre das mirabolantes e obscuríssimas
metáforas, ao que ele, Chico, praticava com suas canções
políticas no tempo da negra ditadura.
Cabeça de Porco parecia um trabalho sério e digno
de ser lido. Mas o título da obra trouxera-lhe à
tona um outro cabeça de porco. Muito provavelmente tão
destroçado quanto àquele. Era uma periferia no
último. E tida e havida como o antro da marginália.
Expressão aristocrático-policialesca difundida
e circulante. Para lá fora tangido por força da
profissão, conquista difícil e disputadíssima
em concurso público. A unidade básica de saúde
do lugar recebera um médico que ali deveria dedicar-se
oito horas por dia na labuta com as enfermidades que o procurariam.
E quantas! Muitas cujas causas eram de nutrição,
de saneamento básico, de higienização.
Bem depois das oito horas estabelecidas, ia para casa moído
e desiludido quanto às suas receitas que abrandavam as
conseqüências, mas incapazes de erradicar aquelas
causas cujas doenças mantinham crônicas.
E logo se deparara com outras doenças tão graves
como as manifestas fisicamente. Tratava-se de moléstias
da alma. Terríveis moléstias mentais que quase
o sufocavam, porque não pôde furtar-se em ouvi-las.
Daí esperava o paciente umas palavras orientadoras do
“dotor”.
Ele as foi dizendo, tais as ansiosas necessidades. E com medo
de que estivesse receitando duvidosos remédios para aqueles
muitos e comuns males de alma reinantes ali naquele cabeça
de porco.
Não obstante a sua grande paixão pela medicina,
era um médico jovem. Entretanto, fora aprendendo, aprendendo
com aquele grande arsenal de miserabilidade humana. Miséria
social que propiciava o alastramento da miséria mental.
O que resultava em promiscuidades, em estados de violências:
espancamentos; estupros; verdadeiros infanticídios: pedofilia;
abusos sexuais de toda ordem; prostituição.
Um cabeça de porco que parecia fadado àquele destino.
A politicalha mandava, perseguia quem se lhe interpusesse. Ele
cedeu. Foi embora de transferência para o posto central.
Abriu consultório, passou a escamotear seu trabalho no
Estado. Entregou-se à vida que os verdadeiros donos dos
cabeças- de- porco queriam.