Um
substantivo abstrato, ensinara-lhe a escola. Designa ser de
existência dependente. Acomodou-se. Empregou-o Mais tarde,
increpou. Muitos seres dependentes eram absolutamente concretos.
Concretos e não independentes. Não como o com
que se conformara a Gramática.
Seres de carne, sangue, osso, juízo e, pelo visto e sabido,
não-portadores de felicidade. É certo que a quase
todos a felicidade está com o outro. Felicidade é
o que o outro é. Felicidade é ser como o outro.
E o outro que não se sabe dela portador considera que
a felicidade está noutro.
Afora, todavia, essa mobilidade comparativa que parece confirmar
seu abstracionismo, a felicidade talvez devesse ser um bem suscetível
de aquisição indistinta de raças, cores,
classe sociais quaisquer. Ainda que para atingi-la, como um
prêmio ou uma dádiva, fosse imprescindível
muita labuta físico-mental.
Seria que para a felicidade não tem idade. Para a felicidade,
não careceria idoneidade. Para a felicidade, não
haveria a obrigação de se apresentar a identidade.
Para a felicidade, não se solicitaria a ancestralidade.
Para a felicidade, não se exigiria a nacionalidade. Para
a felicidade bastaria a supressão da arrogância.
Para a felicidade, seria necessário ser portador de comprovada
solidariedade. Para a felicidade, conviria o exercício
da tolerância. Para a felicidade, seria imprópria
a abastança, a abundância, a extravagância.
Para a felicidade o passaporte-mor seria uma insuspeitada caridade.
Seria crime inafiançável incutir que a felicidade
é dom da pobreza; que a felicidade não reside
na riqueza; que a felicidade pode ser manipulada pelos baús
da esperteza; que a felicidade seja o pretexto para espúrios
negócios.
Lupicínio cantou uma canção, que não
parou mais de ser entoada por outros e pelo povo de seu país,
em que lamenta ter a felicidade ido embora. Sua presença
concreta se dava, ao que parece, com a permanência da
amada. Ocupou sua ausência a saudade. Com a qual rima,
mas jamais é solução.
Não obstante a felicidade nunca tenha uma única
face, tampouco um único fim, ela é a definitiva
finalidade. Assim na terra como no céu.
Então é a felicidade um anseio permanente. O homem
age com os olhos nela. Essa coisa multefacetária e infinda.
Essa preciosidade pretendida por quem na face da terra viva
e sobreviva.
E não há felicidade desacompanhada. Ela povoa
o sonho como nada o habita tanto. Sonhar é almejar a
felicidade: o Paraíso perdido – para os crentes,
felicidade extrema; o céu crido e desconhecido –
para aqueles mesmos, a felicidade máxima.
A felicidade é ponto de parada. Ali se ancora para uma
estada. Mas aí ancorado se quer ou já se traz
outra jornada. O lugar nenhum é seu ponto de derradeira
chegada. Pois que a morte, sendo verdadeiramente este, é
sempre uma indesejada, conquanto seja de fato o fim da estrada,
que, como a grande infelicidade, o quanto se pode, se rechaça.
Na lida, o trabalho respeitoso e dignamente remunerado, que
dá orgulho, honradez e acolhimento. No cotidiano, do
mercado de consumo de massa, não receber as migalhas,
que, concedidas, ainda mais humilham. Na mesa, o sustento a
contento. Na labuta, o retorno, recompensa ao que se dedica,
seja a justa e digna morada. Pão fresco a si e aos filhos.
A bebida certa, aos menos na medida, para a sede provocada pela
profícua empreitada. Não à esmola que incomoda,
amola, e tanto humilha quanto vicia. O direito de ir e vir;
de ser ou não; de ter ou não; de ser e não
ser; de ter e não ter. Eis alguns traços que a
felicidade propala.
A felicidade sempre está em falta. Quer seja o grande
amor, que por alguma desrazão não se tem. Quer
seja o bom vinho que o precário salário não
permite à mesa pôr. Quer seja a almejada viagem
que as economias ainda não são capazes de sustentar.
Quer sejam os filhos ou netos que ainda não vieram por
uma questão de planejamento familiar. Quer seja a doença,
leve ou grave, que ainda não se curou, mas que há
de se curar. Quer sejam as dores e angústias de certas
desavenças que se demoram a dissipar.
Afinal, a felicidade, impelida pelo sonho e pela esperança,
é o horizonte pretendido e por isso buscado. E que, quase
sempre, é descontruído pelo fazimento por tê-lo,
que acaba outro construindo.